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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

À beira dos 40 cresceram-me asas


Esse é o nome de uma peça da Maitê Proença que vi há uns dois anos no Rio chorando de passar vergonha. O título da peça na verdade é "à beira do abismo cresceram-me asas", sendo o abismo, suponho, o aproximar da morte de duas senhorinhas bem idosas que se conhecem num asilo e vão passando a vida a limpo uma com a outra, com todas as tristezas, arrependimentos e constatações de perdas graves que podem surgir numa retrospectiva dessas. Punk, apesar do final feliz: tudo aceitado (pra combinar com acertado e azeitado) e liberadas de qualquer outra expectativa, uma leveza bonita de como quem voa toma conta geral das velhinhas e o abismo (não o de morrer, mas de morrer mal) não as engole mais.

Essa semana Patrick faz 40 anos. Sendo ele seis meses mais velho que eu, seus aniversários marcam sempre a metade dos meus. É fuerte fazer 40 anos. Ao meu redor, os amigos vêm fazendo ou estão prestes a fazer, com maior ou menor drama. Evidentemente que estou no time dos dramáticos. E, se não chega a ser um sofrimento, o assunto rasteja há tempos em mim, causando esse tipo esquisito de cócegas sem riso.

(escrevo para tentar descolar esse ventre do chão.)

Na verdade, o que acho que pega é uma danada de uma defasagem entre a idade interna e a idade oficial. Não falo dos casos de imaturidade crônica. Falo da maioria de nós, que vai tocando a vida mais ou menos conforme, assumindo o que chega com a idade, mas, na hora h, demora para realizar que tem 40, 45 ou 56. É que essa idade de calendário parece ficar no cérebro e não descer pras vísceras. Nas vísceras acontece mais ou menos assim: ali pelos 19 você fixa um certo "eu" que te acompanha até os 28/30 quando há um reboot e você entende que tem na verdade 25 e por aí fica até uns 37, até que, na iminência dos 40, negocia uns 33. Pronto, é isso, me sinto com 33. E não é fisicamente que digo. É um sentir profuuuundo, que vem antes do pensamento, que aparece no pá-pum "- Quantos anos mesmo você tem? - Eu, ah, trinta e... ih.... jesussss, vou fazer 40!".

Assusta pra burro. O racional socorre. Claro que dá para ver o quanto é relativo esse cronos. O tempo marca, traz e tira, mas de um jeito sempre bem pessoal. Toda etiquetada de idade que a gente dá nos outros e na gente próprio (e dá muito) é um norte muito frouxo; cada sujeito tem o seu tempo e esse não é nunca lógico, já colando aqui de Lacan. Assim que ter 40, 25 ou 70, no fundo, não diz muita coisa de ninguém. Pode até existir uma pauta mais ou menos comum da idade, mas certamente não é a pauta mais importante ou a que mais me parece interessante. Pensar no quão simplesmente é inevitável a passagem do tempo (e se não há remédio, remediado...) também ajuda, e quando se lembra então da grandissíssima vantagem em relação à outra única opção possível, eis um bálsamo poderoso.

Mas, o pulo do gato - ou, diria aqui, as asas perante o abismo – é de outra ordem e era disso que queria falar quando me lembrei do nome da peça de teatro.

Uma coisa muito linda acontece ali (aqui?) perto dos 40. Evidente que pode acontecer em qualquer idade como pode também nunca acontecer, mas tenho reparado parecer ser um efeito do tempo meio que geral. Aos 40, as vísceras retardadas finalmente entendem de uma vez que a vida vai acabar. Não é só a do vizinho e a de quem ouvimos falar. A vida que acaba é a nossa própria e a de quem a gente mais é apegado. E não vai demorar tanto assim, sem falar na hipótese de acontecer bem de repente.

Nenhuma novidade; as exclamações por aí nesse sentido são de toda hora.

Mas uma coisa é ouvir, reproduzir, saber intelectualmente. Outra coisa é viver (com elas, as vísceras) essas verdades. E, com o tempo, a gente passa a vivê-las como uma régua de bolso, o que traz na aba uma urgência maravilhosa (sem ansiedade demais que isso a gente deixa pras gatinhas de 30), uma vontade, um tesão, uma coragem, que vai dar em capacidade, poder de realizar, de fazer acontecer, de botar as coisas pra frente - e sem que nada tenha que dar tão certo assim, sem que nada seja tão grave, como era aos 18.

Eu achava que o que tinha dado essa pimenta na vida tinham sido os filhos. Não acho mais não. Eles talvez tenham colocado uns filtros mais coloridos na cabine do piloto. Mas o que de fato derrubou a porta, ligou os motores e terminou com os ensaios foi algo que o tempo tem para dar mesmo, um certo “real” (e aqui não tem como fugir do psicanalítico) que catapulta lindo.   

18 ou 40? Quarenta, em pleno voo.

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