Google+ Followers

domingo, 20 de dezembro de 2015

Deixar

Verbos.  Eu os amo. Ligam um sujeito a seu caminho, traduzem emoções, mandam, sugerem, evocam polidez. E há, para mim, um que faz o tempo pingar e não escorrer. Deixar é o seu nome. Bateu na minha porta recentemente. Pediu, com seu jeito alegremente descompromissado, para entrar. Não tive como recusar e o permiti caminhar comigo. 
Ao seu lado, acabei deixando meu medo de cair de bicicleta. Sob incentivos constantes e firmes do cara mais destemido que conheço, fui, pedalada por pedalada, descobrindo ruas estreitas de prédios pequenos com janelas quase sempre fechadas, que, quando abertas, ora exibiam tímidas flores, ora roupas a secar, ora cortinas rendadas, quase sempre me colocando a imaginar o que escondiam. Aprendi que o frio sob uma bicicleta tem graus a mais, sim, mas tem o poder de tocar cada poro do rosto como nenhuma outra coisa é capaz.
Deixei também numa lata de lixo da esquina, o medo que meus filhos experimentassem o mundo. Meus pequenos percorreram também em bicicletas, à noite e no frio, as ruas de Bordeaux e, como eu, puderam sentir o vento gelado lhes cobrir as bochechas de beijos.
Deixei como nunca imaginei o nojo da sujeira da minha privada. E descobri outros tantos caros verbos como cuidar, limpar e brilhar. 
Deixei ficar, agora, nos dedos, o cheiro do alho e da cebola pra rascunhar essas pensamentos desalinhados.
Tenho ainda muitos medos, receios, nojos e cheiros pra DEIXAR em algum canto. Os que já ficaram para trás deixaram minhas costas suficientemente livres para sentir em conta gotas o abraço que o vento é capaz de dar.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Outono

Entre dois paredões de pedra, um caminho. Folhas quase secas penduram-se em grandes galhos. Ouça-as farfalhar. O vento decide conceder-lhes liberdade. Passam a voar. São muitas. Algumas aterrizam nos meus ombros. E juntas entoam o que pra mim parece ser o canto da chuva das folhas secas. É o tempo de se aquietar porque há também folhas, agora, sobre uma escrivaninha de madeira. Numa folha (de papel), uma tinta azul escorre de forma irregular de uma caneta de pena. Letras são traçadas com esmero. Há horas em que a pequena mão que segura a caneta treme. Acidente a formar pequenas poças de tinta que não hesitam em se casar com linhas pré desenhadas no papel. Um olhar de soslaio pede meu apoio. Um sorriso no meu rosto encoraja o ritual, que se repete em minutos sequenciados. É o tempo a se render ao instante.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Cours de L'yser


O comércio parece ainda despertar e o meu dia gira há algumas horas. Me vem à cabeça cenas curtas do mover-se das mulheres francesas. Elas não fogem do perscrutar dos meus olhos. Gosto da aparente ou real lentidão delas. Parecem flutuar em suas bicicletas de cestinhas. E quando não há duas rodas e o transporte repousa nos pés, as mãos (normalmente a das senhoras), ficam livres para carregarem flores. Algo me diz que estão a cultivar pausas.

Outro dia, uma francesa pediu ao cachorro dela, que estava muito agitado, que agisse lentamente comigo. Usou a expressão “lentement”. Que tesouro um pedido desse! Talvez, esteja a precisar que alguém segure minhas mãos e diga: “lentamente, Mariana”.

Nesse momento o “tram” me sacode de maneira gentil. Reparo uma mãe que lê para o seu bebê. Ela o faz de forma vagarosa. E o bebê, a imitar a mãe, passa seus dedos sobre o livro como se não existissem relógios. Observo ambos e me indago porque ando a correr. Corro com meus pensamentos. Corro com meus pés calçados e até mesmo com minha bicicleta curiosamente pouco veloz. 

Um sinal dentro do “tram” indica minha parada. Place de La Victoire. Desço. O frio aligeira meus passos. Será mesmo a temperatura a me apressar? Chego até minha rua. Cours de L'yser. Vejo no caminho até minha casa um homem limpando os vidros de um restaurante. Não diria ser francês dentro dos meus estereótipos imaginários. Seu semblante é feliz. Faz gestos suaves com os produtos de limpeza que tem nas mãos. Imediatamente, eu paro. A lentidão me invade. Escuto ao pé do ouvido a tal francesa dizer: “lentement, Mariana”. E só, então, me dou conta da beleza da rua que escolhi para morar, apesar de já a ter esconjurado muito mais vezes que meu marido gostaria de escutar. Nessa rua, a França concretiza também suas mazelas. Nela se mimetizam o que costumamos evitar: contradição, mistura, sujeira, velhice, alcoolismo e, quiça, o tédio. Mas para mim, agora, é a rua onde existe um moço, que limpa delicadamente os vidros de seu provável comércio e me fez pausar. Assim, pra me vida me levar. Lentamente.


sábado, 25 de julho de 2015

Gabriela em 40 tempos


- Dos cacos à luz

Ela me disse um dia que não era boa em cuidar. Poderia ter acreditado, até o dia em que meus cacos se espalharam num chão de ardósia verde. Um chão que ela sempre me disse adorar, mas que agora me abrigava “completamente” quebrada. Ela apareceu com seus olhos também quase cor de ardósia e me disse:

“Existe, gente, Mariana, que não consegue dar sentido, ou acha que os farelos de sentido que consegue escavar das pedras são insuficientes para justificar uma vida humana, e quebra. Quebra por inteiro. Estes, você, precisa respeitar, porque sofrem de delicadeza. E existe gente, Mariana, que só é capaz de dar um sentido bem pequenino, um sentido de papel, que pode ser derrubado mesmo com uma brisa. E essa brisa, Mariana, não pode ser soprada pela sua boca. Ser forte, Mariana, não é quebrar os outros, mas saber-se quebrado. É ser capaz de cuidar dos seus barcos de papel – e também dos barcos de outros – não como uma criança que os imagina poderosos, de aço. Mas sabendo que são de papel e que podem afundar de repente.” (texto de Eliane Brum adaptado)

Em seguida, recolhemos, as duas, bem juntas, os meus tantos pedaços dispersos naquele chão. Não para juntá-los, não para colá-los, mas pra fazer deles percurso de uma vida, onde há feixes de luz, delicados, sutis e que entram pela fresta de uma janela, que ela costuma deixar entreaberta.

- Da luz que ela e eles produzem

Três pequenos corpos feitos de parte dela giram.
Beijam o vento.
Colorem o tempo.
Se distraem com a luz de simples momentos.
 
- Da distração ao amor

"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são de uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Tudo só porque não tinham prestado atenção, só poque estavam e ainda estão bastante distraídos." (Texto de Clarice Lispector adaptado)

- 18 ou 40? 40, em pleno voo. (Frase do post À beira dos quarenta, cresceram-me asas)

 
 
 
 

domingo, 12 de julho de 2015

De repente, 40.

Outro dia fui apressada a 313 norte tirar uma foto 3x4. Morei nessa quadra quando era criança e até hoje só tiro foto 3x4 lá. 
Aviso antes: essa é uma história tão real que eu só consigocontar se inventar. Então, na verdade é uma mentira. Ou não. Vocês decidem. 
Pois passava por lá com a cabeça em tantas outras coisas(dentre elas, “será que faço ou não faço uma festa de 40 anos?”), que mal notei uma menininha de uns anos que ia satisfeita andando com seus patins pela calçada. 
Ela, tão atenta ainda aos mínimos detalhes, me percebeu assim que sai do carroPatinou rapidíssimo e se jogou em cima de mim num abraçoquase me matando de susto. 
Agarrei a garota para não deixa-la cair, enquanto ela já me chamava de Gabriela, sorrindo e me fulminando com toda a sua curiosidadeOlhei para ela e não a conheciaOlhei de novo. “Parece um pouco com a Manú”, ainda consegui pensar antes de me fixar bem dentro daqueles olhos miúdos e do rosto em botão, feito todo ainda de futuro. Olhos e rosto familiares demais para que eu não entendesse na hora exatamente o que estava acontecendo. Não precisei mais perguntar qual era o nome dela ou como é que ela sabia o meu.
- Oi, disse eu meio louca. 
Oi, disse ela toda animada. 
Você está aqui sozinha? Como é que a mamãe deixou?
- Não deixou não. Eu fugi. Fugi do seu passado só pra te encontrar e te fazer umas perguntas. Tem que ser rápido porque realmente não tenho muito tempo. Preciso saber de umas coisas urgente. 
Perguntas? Urgente? O que quer saber?
Em resumo, quero saber se as coisas vão dar certo para mim, se viver vai ser bom. Me diga, Gabriela, aos 40 anos, você é feliz?
Ai meu deus do céu, era assim mesmo, desde criança pensando demais e sendo perturbada da cabeça... Aliás, tenta melhorar um pouquinho nisso, dá um trabalho ser assim... 
- Não vai me responder?
- É difícil falar dessas coisas, assim, do nada, no meio da rua, morrendo de pressa...
- Nossa, eu vou ficar tão complicada e apressada assim, é?Bom, tenho uma ideia. Eu te ensino a parar o tempo. É fácil. Você já soube fazer isso um dia, mas, pela sua cara, deve ter esquecido. Vem. A gente senta ali começa a olhar devagar demorado pra tudo o que o olho alcançar. Olha pra pedra, pro céu, pra formiga, pra grama até que esteja respirando tipo grama, tipo pedra, tipo formiga, tipo céu. Pronto, é aí que o tempo pára acabou a pressa. 
Me deixei arrastar pelo nonsense. Sentei com a minha Gabriela menina no banco que ela queria. Maria chiquinhas, patins no pé, a canela toda roxa – era a mesmíssima que tinha ficado na minha lembrança. Eu bem que queria mesmo dizer algumas coisas pra aquela garotinha. Alguns conselhos, uns toques. Ela bem que podia me poupar de algumas enrolações sérias e dores doídas em que tropecei por aí. Teria também umas notícias boas para dar a eladizer das coisas que vão dar certode uns presentes que vão chegar... 
Sentamos no banco. Fechei os olhos, esquecendo que era para olharUma terceira voz quase me matou de susto pela segunda vez
- Gabriela? 
Uma senhora de ar calmo, sorriso largocabeleira branca, rosto enrugadoapareceu sentada ao lado. A menina de patins já tinha pulado pro colo dela
- Não me diga...
- Sim, sou eu. 
- E aí, tá tudo bem? As crianças cresceram? Cadê o Patrick? Minha irmã? Posso andar de avião tranquila? 
Ela me olhou divertida
- Tinha me esquecido de como eu era ansiosa aos 40 anos
Ri também
E aí, tem cura pra isso, vou melhorar?
- Não sei. Você tá disposta a fazer alguma coisa a esse respeito? Tem uma coisinha que a gente aprendeu, Gabriela. Que há sim um monte de coisas em relação às quais não dá pra gente fazer absolutamente nada. Mas em relação a inúmeras outras coisas, e algumas importantíssimas, a escolha vai ser nossaCuidar de si ou se abandonar. Olhar para dentro ou se desviar. Ir em direção ao outro ou só esperar. Aprender com o que erra ou repetir eternamente. Viver ou ser vivida. 
[mas, menina, incrível como eu não era tão gorda como imaginava e nem já tava ficando velha aos 40 anos como pensava!]
- Dona Gabriela, talvez você possa me ajudar com uma coisinha aqui. A meninha ai do seu colo quer saber, em resumo, se eu sou feliz aos 40 anos... E aí, o que temos a dizer?
Ah, você sabe o que dizer. 
Sabia mesmo. Tomei fôlego e fui dizendo
“Olha, Gabriela, viver é bom sim, eu acho e, pelo jeito, você também vai achar um diaVou cochichar uma coisa muito legal aqui pra você: conta pra ninguém não, mas aos 40 você vai estar mais feliz do que está agora. Mais feliz, aliás, do que já foi em todos os outros anos. E não é pelo o que aconteceu fora de você, se bem que a gente tem que reconhecer umas sortes: o básico foi garantido e nenhuma desgraça muito feia aconteceu. Mas o principal, Gabriela, aconteceu por dentro: você aprendeu a gostar de você. Com todos os seus muitos defeitos e limitações, com todos os seus problemas. Aceitou o pacote completo e está mais disposta a, ao invés de sofrer, arregaçar as mangas e ver o que dá pra fazer com isso. 
Se a gente gosta da gente, gosta de gente e gosta da vida vive num tripé forte pra burro. Vem tempestade, enverga, acha até que quebrou, mas quando vê, está lá de novo de pé, não tem muito erro. 
Chegando perto dos 40, o que rolou também, e que foi incrível, foi uma urgência de vida. Uma noção muito clara de que a vida acaba. Não é mais a vida do vizinho, do avô da amiga ou da prima do colega de trabalho que acabam. A minha – a nossa – vai acabar também, inescapavelmenteE isso pode ser desesperador só até antes de você entender que também é a maior força que se pode ter. 
A vida acaba e não é só láaaaaaa na frente. É, relativamente, daqui a pouco. O tempo passa cruelmente rápido demais. Veja só que eu entrei outro dia no meu emprego, cabelo na cintura e desmiolada como você vai ser aos 23, e hoje estou lá cheia de responsabilidades, tendo que acolher todo dia o desmiolamento dos outros... De repente, super de repenteTambém de repente eu beijei outro dia um loiro bonito desconhecido e hoje às três da madruga ele estava medindo febre da nossa filhacomigo, 15 anos depois. Foi assim, ó. 
Ao mesmo tempo que essa urgência de vida chega, aos 40 tudo parece ficar estranhamente mais calmo. Suavizei, disse uma amiga queridíssima ao fazer mesma idadeAs coisas ficam menos fatais, sabe? Não deu, não deu. Rolou, rolou. “É o que temos para hoje” – deixa de ser só uma frase de garçom, para virar um amuleto
Mas, por falar em urgências, suavidades e amuletos, aproveitando a sua surpreendente presença, Dona Gabriela, eu queria que você me explicasse algumas coisas...
Ai, Gabriela, você ainda quer entender muitas coisasFaz parte. Mas sabe essa calma que você falou? Ela vai crescer, tanto a ponto de fazer com que saber das coisas perca um pouco a importância. Aos 80, a gente se rendeu (se puder se renda antes, economiza os nervos). Se rende à falta de sentido da vida. Porque 
viver não faz sentido – disso você já sabe, não sabe? E todo sentido muito absoluto que a gente tenta dar pra vida acaba nos pegando no contrapé uma hora.
Eu sei, eu sei... Eu sei o quanto essa falta de sentido gera de angústia! Sempre tem algo da vida que parece escapar, faltar, não calar, não sossegar. É ou não é? É sim e é assim com todo mundo, em maior ou menor grau
Mas tenho um segredinho pra isso ficar menos forte: desista dos grandes sentidos de vida, desista de qualquer competiçãode todos os absolutos, perfeitos, de todos os invólucros e de todos os garantidos. Em vez, se jogue nos pequenos, diários e muito prosaicos sentidos de vida que existem. Esses existem e podem dar tanto prazer e tanta alegria e tanta beleza que dá pra encher uma vida toda! Uma conversa boa com um amigo, a inteireza de um banho de mar, o roçar da pele na pele de quem se ama e tantos tantos outros. 
Quem vive assim, mais rendido à falta de sentido, aprende a se divertir. Em determinado momento, a gente aprendeu a se divertir, sabia? Mas não quero te adiantar mais nada. Se eu fosse você – aliás, eu sou você! – também não adiantaria mais nada para Gabrielinha aí. Sabe por que? Porque vocês precisam se esforçar. Não tem nada garantido. E o melhor esforço, Gabriela, está sempre ligado a não se perder muito nas besteiras, focar na essência das coisas. Gastar seu tempo e sua energia só com o que faz girar amor e luzSe não faz, não se demore. 
Gabriela menina olhava para gente como quem não entendeu nada e pouco se importou com isso. Me deu um beijo estalado na bochecha e me disse arregaçada de alegria : gostei de você! Olhando para a senhora do nosso lado, se despediu: gostei mais ainda de você! Adorei a parte da diversão! 
Rimos todas e nos abraçamos forte antes delas, iguais a bolhas de sabão, desaparecerem da minha frente e eu me ver sozinha, num banco da 313 norte, sentindo sem pressa nenhuma um o abraço do sol no corpo
Antes de me levantar, tive a impressão de ainda ouvir Dona Gabriela dizer de algum lugar perdido no tempo: ah, já ia quase me esquecendo! Não tenha dúvida em dar uma festa de 40 anos. Não tenha preguiça, não faça economia. Reúna quem você mais ama e aproveite o máximo omomento. Se eu te contar que até hoje me lembro de você ali em pé, vestida de rosa na sala coberta de passarinhos, lendo um papel que nem sei mais o que dizia, mas fazendo força para não chorar enquanto se sentia feliz como só aos 7 anos andando de patins na quadra?!