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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Natal sem surpresa

Há dois anos comprei um caderno fininho pra fazer com ele um "caródromo" da família todo janeiro. Daqui a uns dias, lá vamos nós pra terceira página do caderninho, que vai receber então as nossas cinco 3x4 de 2015.
Fino. O caderninho é desses fininhos. Lembro que quase não comprei pensando que as folhas não iriam dar para o que queria, que é ir registrando os rostos e os rostinhos do nosso quinteto desde o começo (2012) até enquanto os cinco ainda estiverem juntos por aqui neste mundo (20??). Contei as folhas: 71.
Parecia que estava errado, caber todo o meu resto de vida naquelas poucas páginas. Mas a matemática não engana (e, no caso, desengana). Considerando a minha idade e a do Patrick, até as previsões mais otimistas da gente, do tipo Oscar Niemeyer e a dona Canô, estariam necessariamente contempladas no breve caderninho.
Comprei. De vez em quando, dou de cara com o caderninho na estante. Pra minha surpresa, ele vem me servindo pra coisa muito mais importante que álbum. Tipo colete ortopédico, passo por ele e estico as costas, corrijo a postura, respiro mais devagar, me enlevo.
Explico.
É que a mirradez do caderno, que é essa da própria vida, me enche, sim, de melancolia. Delgadinha, a vida é uma velocista de primeira e parece, contrariando o ditado, acabar, sim, sempre numa véspera (não conheço gente que não tenha morrido com uma meia dúzia de sonhos ainda no bolso e alguma sede resistente de vida).
Mas não é só melancolia que me bate ao enxergar o caderninho. Som e fúria também - e não deve ser por acaso que essa expressão shakesperiana tem me vindo tanto à cabeça ultimamente. Levado o susto das poucas mas suficientes folhas, agora me gela o coração aquele vazio todo. Mais especificamente, o quanto desse vazio me cabe, euzinha, resolver como preencher, digo, o quanto posso e devo realmente influenciar nesse recheio a ser colocado. Inevitavelmente a minha foto de 2047, daqui a reles 32 páginas, vai me exibir "gasta", com rugas, cabelos brancos e todo o visual de quem, fisicamente, declina. Isso é absolutamente incontornável.
Mas será que não posso escolher, em porção significativa, no quê vou ter me gastado? Com o quê vou talhar essas rugas, que ares que vão descolorir o cabelo?
Posso, e não é pouco. Posso escolher ter rugas em 2047 em um rosto que sorriu muito de um corpo que amou bem. Posso escolher enfrentar os "morros acima com vento contra" caminhando firme, torneando pernas e galgando coragens. Posso escolher um monte de coisas e é aí que entra o Natal.
Natal, pra mim, é tipo esse caderninho: eu passo por ele, ele passa por mim, sai ano, entra ano, e eu sinto as costas imediatamente se esticarem, a postura ficar mais leve, a respiração mais quente, meus 1,70m mais amorosos.
Se tudo já se disse sobre o Natal, algo meio diferente, mas profundamente verdadeiro para mim, me ocorre: o Natal como medida. Medida da qualidade do que eu venho colocando nas minhas finas folhas de vidas.
Se essas costas, ao se esticarem, se flagram curvadas demais; se o peso, ao ir momentamente embora, alivia uma carga que, bem aí, se descobre enorme; se a respiração ao esquentar mostra o quão fria e entrecortada andou; se o amor demora para dar o "load" em você tão hostil encontra o território... O rumo tem que mudar, o caderninho tem que começar a ser preenchido com mais capricho, meu caro.
Agora, se o Natal te encontra e pouca coisa que ele inspira por aí pra você é novidade (vontade de ver os outros, vontade de declarar amores, vontade de transbordar), ou seja, se pra você, neste sentido, Natal é quase que brancas nuvens, porque, distraidamente, parece com qualquer outro dia, meu amigo, eu te digo, seu caderninho continua tudo (besta, breve e mirrado), mas de pequeno e estreito não terá nada. Será, ao final, um pequeno caderno grande.
E é tudo que dá para fazer. Limitado, sim, mas bastante e capaz de preencher, com fúria, som e cores, uma vida inteirinha.
É isso que eu desejo: nas linhas que nos sobram, caderninhos e álbuns e rostos e alturas bem preenchidos.
E, desse jeito, Natais que não nos surpreendem.