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sábado, 24 de maio de 2014

Melancolia


Foi uma época estranha. Foi um tempo de objetos de ruídos profundos. Foi num lugar desenhado num mapa.   

Os olhos dela pareciam caçar aviões em vôo. Ela gostava de se deter nas aterrissagens. O ensurdecedor barulho daquele momento transformava-se numa cena quase silenciosa: o roçar de seus pés na grama para experimentar a umidade da terra entrar por entre as crescentes rachaduras de seus calcanhares. Era o único lugar onde sentia que nada caia. De suas pernas nasciam raízes profundas que a deixavam como que plantada. Mas aviões caíam, como todo ser humano, desde bem pequeno. Ao pensar nisso, rezava imaginando uma fé muito particular, a fé dos que acreditam em aviões que nunca caem. E ao tomar fôlego, entre uma oração e outra, lembrava-se que a maior parte do tempo fora cética.

Interessavam-lhe muitíssimo insetos gordos e o modo lento como se moviam no asfalto quente. O trajeto que faziam imediatamente a remetia  aos mapas que gostava de desenhar em papel manteiga quando criança. A sensação que lhe vinha ao corpo era o escorrer dos dedos da mão direita sobre o pó do lápis de cor. Havia um vai e vem que aos poucos dava vida ao mapa, que emergia com montanhas, planícies e rios. A geografia do cotidiano era em tudo semelhante àqueles traçados: uma imensidão delimitada por desgastes, erosões e acumulações, que costumavam esquadrinhar caminhos. Comum que alguns dessem em encontros. Outros não tinham destino que não o fim. Era quando tudo se dissolvia. Será por isso que cenas de catástrofes lhe invadiam os sentidos com frequencia? Que mundo era aquele, que não mais em pangéia, clamava por mais e mais fissuras. Uma onda de desamparo irrompia e lhe ardia a pele. O seu andar distraído vinha em socorro. Aparecia alegórico e a levava para dentro do mapa, aquele onde desde pequena aprendeu a viajar. Foi, assim, que ela desapareceu.  

quinta-feira, 8 de maio de 2014

De mãe em mãe (ou “A doçura do futuro”) - escrito em out/2012


                                 
Clarice me telefona. Entre uma paciente e outra, retorno a ligação:

- Oi filha, que saudade!

- Oi mãe.

- Ih, Clarice, sua voz não tá boa. O que aconteceu?

- Nada não, mãe...

- Não vai me contar?

- Quando chegar aí eu te conto.

- Tudo bem, mas eu vou ficar curiosa, faltam quinze dias ainda pra você voltar...

- Pois é, mãe, mas eu tô com vontade de voltar antes, já nesse domingo...

- Então venha!

- Quero ir, mas aconteceu uma coisa meio chata... Eu deixei pra comprar a passagem de avião na última hora e acabei gastando o dinheiro que vocês tinham me dado todo, tô sem dinheiro pra passagem....

- Não acredito, Clarice! Gastou tudo?? 

- Praticamente...

- Que pena, Clarice, vai ter que voltar de ônibus então...

- De ônibus, mãe? Aqui de Alagoas?

- É, de ônibus. Ou carona. Ou a pé. Sei lá.

- Nossa, mãe, você vai ter coragem de me fazer ir de ônibus?

- Não, filha, quem teve coragem foi você. Se gastou o dinheiro da passagem de avião, como esperava voltar pra casa?

- Você vai pelo menos me buscar na... na... rodoviária?? Eu queria te ver antes de ver o Paulo...[namorado da Clarice desde sempre]

- Claro, Clarice. (Eu te buscaria até no quinto dos infernos, mas essa parte aí deixo pra você descobrir quando virar mãe...)

- Tá bom, mãe. [chateadíssima]. Vou ver se existe esse ônibus aí e depois te ligo.

- Beijo, filha.

- [...].

 

Meio pesada com a situação, começo a divagar: “Como é difícil deixar os filhos viverem as conseqüências do que fazem, sem aparar muito, sem proteger...”. E bem aí a imagem dos olhos do meu último bebê me atropela. Grandes. Azulados. Profundos. Uns pocinhos de água azul morna. A toda hora buscavam se fixar nos meus, como se me perguntassem “e aí, mamãe, é bom mesmo viver?” Adorei aqueles olhos como poucas coisas na minha vida.  

 

Foi uma época complicadinha pra gente. Quer dizer, com a distância de hoje, penso nesse tempo muito mais com ternura e saudade do que qualquer outra coisa, mas, se escarafuncho melhor a memória e sou honesta comigo, não tem como não me lembrar do quanto nos exaurimos quando a Clarice chegou. A rotina de cuidar deles - todos e tantos - esfolava a gente. O Santiago ainda muito pequeno, a Manu sempre com as suas - era complexo acomodar tantas demandas e não asfixiar demais as minhas, comumente gordas e gulosas. Eu não tinha tempo pra mais nada. Às vezes dar um simples telefonema pra alguém exigia um planejamento de dias. Uma loucura [agora com vontade rir]!

 

Claro que também era muito bom. E não precisou se passar vinte anos para eu me dar conta disso. Eu estava sendo feliz e sabia. Não tinha dia em que não me deslumbrava com aquelas crianças lindas e tesas, tudo ali na barra da minha saia, me sacudindo e requisitando o tempo inteiro, mas sobretudo me dando a chance de uma experiência de amor sem igual.

 

De qualquer forma, mesmo no meio desse maremoto todo, consegui em algum lugar certa calma para as pausas que os olhos de Clarice me pediam. E olhava de volta loooongo pra ela. Tanto que os tenho decorados até hoje (os olhos da minha Clarice).

 

Clarice se apresentou ao mundo bonita, mansa e curiosa desde o dia em que nasceu. Simpática (muito simpática) e discreta também. Um pouco frágil, sempre. Lembro-me bem de quando começou a sorrir lá pelos dois meses. Tentava várias vezes ao dia. Não podia ouvir minha voz que escancarava a boca sem saber coordenar direito os cantos da boca. Ficava toda torta, era engraçadíssimo.

 

Pouco mudou. Vem seguindo por todos esses anos a sua natureza bonita, mansa, curiosa, simpática, discreta e frágil, calibrando, aqui e ali, onde e quando isso que é seu sobra, falta, a enrola ou trai. Nos seus vôos, venho vindo na garupa, tentando não pesar muito... Tentando (sobretudo) não me esquecer de fechar os olhos e aproveitar bem o vento gostoso no rosto, bom e quente, da nossa aventura de mãe e filha. Que incrível é isso de acompanhar a existência de alguém desde o primeiro esboço. Se nada mais houvesse acontecido na minha vida, ser sua mãe, Clarice, já teria sido suficiente. Exato assim.

 

Mari abre a porta do consultório, exclamando da porta:

 

- Ué [há muito já perdeu o “uai” que eu adorava], o que você ainda faz aqui?!

- Eu... eu... E você? Suas sessões não são só à noite hoje?

- É, mas eu vim buscar o Seminário XX pra reler. Peguei um caso complicadíssimo. Aliás precisava conversar sobre ele com você...

- Mari, você se lembra da Clarice bebê? [baixinho]

- [sem ouvir] Biaaa, e que coisa é essa do João ter ido visitar a Manú em Milão de repente, sem avisar nada pra ninguém??

- Pois é, te liguei assim que soube mas não consegui falar com você. Almoçamos juntas? Lá te conto o que sei.

- Vamos!

 

[...]

 

 Já no restaurante:

- O que aconteceu é que a Manú escreveu um email todo jururu dizendo que não está gostando muito da faculdade de moda lá de Milão, achando eles meio sem originalidade, e que a ralação de lavar prato em barzinho à noite está puxada demais. Contou também que os italianos são uns babacas com ela, sempre dando em cima de um jeito nojento, e que ainda não fez nenhuma amizade legal. Eu vi que copiou o João. Pelo o que me contou depois, ele ficou super preocupado com ela e, no dia seguinte, resolveu aparecer em carne e osso lá na Itália.  

- Pois é, mas ele é doido, porque vai faltar a vários dias no estágio que ele tava adorando... Não sei se podia faltar...

- Ah, mas estágio de Paleontologia na Costa do Marfim deve ser algo pra se fazer bem devagar mesmo, Mari [risos]. E hoje em dia com esses aviões supersônicos, ele foi da África à Itália em menos de uma hora, e nem por tanto dinheiro assim. O mundo ficou pequeno demais, Mari... Imagina que naquela nossa viagem pra Europa em 2000 a gente gastou mais de dez horas no avião! Hoje em dia são 50 minutos e olhe lá. E já que ele agora tem um pai milionário, tem verba de sobra pra essas loucurinhas...

- Quem diria, né, Bia, que o Fábio descobriria sozinho a última mina de diamante da América Latina...

- Quem diria! E a gente há vinte anos achando que ele tinha mania de grandeza e sonhava alto demais... E quem diria também que ele seria mesmo o homem da sua vida, hein, Mari, e vocês viveriam tão unidos e bem todos esses anos? Naquele começo de vocês foi tanta dificuldade... 

- Opa, homem da vida não existe, Bia. Como diria a velha Arlete, só se pode dizer “homem da sua vida” em retrospectiva...

- É verdade! E a Arlete, por onde será que anda? Outro dia no encontro do IPB – new generation disseram que estava internada... Fiquei preocupada. Mesmo tendo terminado a análise com ela há tantos anos, acho que a morte dela me abalaria horrores!

- Ah, mas ela já saiu do hospital, pois semana passada a encontrei numa livraria, esqueci de te contar... Tá velhinha, acho que já beirando os 90, mas firme. E com aqueles olhos brilhantes de sempre [desses que se ganha o par ao se encontrar na vida]. Ela não me viu e eu preferi não falar com ela quando, ao bisbilhotar o que estava folheando, vi a capa do livro. Tá sentada?? Você não vai acreditar qual era!

- O nosso!

- Exatamente, ela estava comprando o nosso livro! “A justiça no divã: a desventura no território do excesso”, de Gabriela Jardon e Mariana Távora.

- Jura! Nossa... Viu, até ela tem suas curiosidades não muito lacanianas! Arlete...Quanto ela representou pra nós duas, né? Demos sorte, foi uma grande psicanalista. Segurou nossas ondas na unha. Conduziu lindamente as análises. Sob a batuta dela – acho que não é exagero dizer – a gente reescreveu muita coisa, conquistou uma vida mais autêntica, mais livre, centrada no nosso desejo. Ela verdadeiramente “circuncidou” a gente, Mari, desgrudou, tanto quanto possível, a gente do Outro. Pode ter algo mais importante que isso? Não há. Nem saúde, nem prazer – chego a dizer que nem a própria felicidade -, nada me parece mais vital do que se aprender a viver a partir e em consonância com o que se é.

- Engraçado... Isso me lembra a definição de amor de Saint Exupéry:“Amar é conduzir alguém delicadamente de volta a si mesmo.”

- Isso mesmo! Tá vendo que coisa linda? A psicanálise nunca fala de amor, mas, se você for ver, é amor, sim, pois a boa análise não passa disso, da recondução de alguém a si mesmo. Só não costuma ser tão delicadamente assim [risos]. Sabe, Mari, eu fui feliz como juíza. Fui mesmo. Sentia um tesão danado nessa tentativa cotidiana de aproximação da justiça. A justiça é uma coisa bonita. Mas é algo menor, bem menor, quando se pensa no amor, quando se pensa nesse amor da forma como definida Saint Exupéry, esse que conduz alguém a ele mesmo – e que pra mim é a essência de uma análise. Trabalhar com isso hoje pra mim é o que de melhor podia me acontecer. E eu sei que pra você também. By the way, tô pra te falar isso há tempos... O brilho do olho da Arlete... Esse brilho pousou nos seus olhos, Mari! Eu vi isso acontecendo, e reparei!Muito legal toda essa guinada que a gente conseguiu dar. Muito legal ter passado por tudo isso com você.... Aliás, cadê nosso espumante? Um brinde a tudo isso!   

- [...]

- Mas deixa eu acabar de te contar da Manú e do João... Você sabe o que ela me escreveu ontem? Disse que tudo continuava meio mais ou menos por lá, mas pelo menos nesses dias ela estava tendo a mão do João pra apertar antes de dormir! Você se lembra dela pequenininha, que só dormia apertando na mão de alguém? [com os olhos cheios d’água]. A Dora também era assim, se lembra?

- Lembro... Que bonito isso deles... Será que agora eles engrenam de vez?

- Não sei não... Ela insiste em me dizer que ele é só seu “amigão”. Engraçado que chega a usar as mesmas palavras que eu usava para dizer a ela, quando tinha uns quatro anos e vinha com o papo de que era a namorada do João, que ele por enquanto só era seu amigo... E sabe de uma coisa, Mari? Uma amizade dessas é mais rara do que um amor. Deixa estar.   

- É verdade... E os preparativos pra sua viagem?

- Ah, estamos a toda. Ano que vem a gente zarpa. Pelos menos uns dois anos dando a volta ao mundo, só eu e Patrick. Claro, esperamos encontrar as crianças e quem mais quiser por aí, mas será um tempo de soltar as velas e... ir, sem eira nem beira,  voyerizando o mundo por aí. Fico louca de emoção com um negócio desses, a gente tá super empolgado!

- E os meninos, vão ficar sozinhos mesmo?

- Mais ou menos. Minha mãe tá lá nos fundos da nossa casa na casinha que construímos pra ela. A Carol mora no conjunto de cima hoje em dia, com aquele marido rico que tem, com os gêmeos dela e seu séquito de empregados, uma superestrutura... Eu não podia deixar gente mais atenta pra ficar de olho no San e na Clarice. E depois... Cresceram, né, Mari. A gente tentou colocar no input deles o melhor do que sabíamos e podíamos esses anos todos. Agora é com eles.  

- E o San, cadê ele?

- Enrabichado de novo. Mulherengo demais. Essa coisa de homem canceriano, não escapou. E bonito daquele jeito... Mas, tá lá, fazendo a faculdade dele, cuidando das velhinhas da família [risos]. Acredita que todo santo domingo vai até o Gama visitar a Vera? Não falha uma vez. E, quando chega em casa, vai direto ver minha mãe, com quem tem um xodó desde bebezinho, lembra? Faz o supermercado dela, a leva no médico, faz tudo o que pede. Não precisa nem dizer que é a paixão da vida dela.

- Mari, e a Dorinha? Esses dias ela me ligou pra saber como fazia pra falar com a Clarice lá nessa praia em que ela está, disse que ela não atendia o celular...

- Então, parece que ela falou com a Clarice e combinou tudo, estão indo na segunda pra lá ficar com ela. Vai ela e a Gabi da Thaissa.

- Na segunda?? Ué, a Clarice acabou de me ligar e disse que queria voltar domingo... Bem que ela estava esquisita no telefone... Tem alguma coisa errada acontecendo, Mari... A Gabi vai? Que bom! Outro dia encontrei o Rafa. Fui fazer um happy com um pessoal de umas editoras aí tentando vender o meu peixe e ele estava lá, rodeado de gente, contando piada, as pessoas hipnotizadas por ele... Foi só me ver e gritou “tia Bia!” Me fez tomar um chopp com ele, queria saber do Patrick (sempre gostou do Patrick). Impressionante, desde pequeno é essa explosão de energia e simpatia, né?

- E com um humor muito afiado! Também com os pais que tem! E a Thaissa, onde anda hein?

- Ah, depois que eles se aposentaram, ela não consegue mais segurar o Ricardo aqui. Vivem viajando. Por esses dias estão com o Alécio em Mônaco. O Felipe é o novo embaixador do Brasil lá.

- Ah é, você já tinha me falado. Bom, Bia, preciso ir andando, o meu paciente complicado tem sessão às seis e eu quero me preparar melhor pras bombas que ele vem soltando. Aliás, acabou que nem falamos disso.

- A gente nunca esgota os assuntos, Mari... Vai ver que esse é o segredinho das amizades eternas, ter sempre umas pautas pendentes... (;

- Deve ser! Por falar nisso, ano que vem, pelas minhas contas, a gente faz 40 anos de amizade...

- Ih, Mari, não conta isso pra ninguém não! É tempo demais!!! Outro dia me deram no máximo 50 anos de idade... Fiquei felicíssima! Se souberem que eu tenho amizades de 40 anos e que não começaram propriamente na infância... [às gargalhadas e pensando em ter que avisar a Thaissa urgentemente que já temos mais de 30 anos como amigas e agora, definitivamente, não precisarmos mais mentir... Ou será que agora sim é que precisamos?!]

- Vamos, eu te deixo no consultório.

 

[...]

 

Chegando no consultório, meu coração apertou pensando de novo na Clarice. Resolvo telefonar:

- Clarice?

- Oi mãe.

- Filha, o que há de errado? Tô com o pressentimento que alguma coisa tá acontecendo contigo.

[longa pausa]

- Clarice? Tá me escutando?

- Mãe, eu e o Paulo... Mãe, eu tô grávida.

- [...]

- Mãe?

- [...]

- Mãe, fala comigo, fala alguma coisa. Eu tô em pânico!

- Vou comprar sua passagem de avião agora mesmo. Quero te ver o mais rápido possível, filha.

 

[...]

 

No dia seguinte:

- Sabe o que não me sai da cabeça desde ontem, Clarice, quando você me deu a notícia? Que há vinte anos eu também me senti aterrorizada com a notícia de que estava grávida de você. Essa noite não dormi, tentando não só digerir o que te aconteceu, mas também entender a associação inconsciente que estou fazendo dessas duas notícias de gravidezes inesperadas, a minha e a sua. Além do que há de óbvio em comum, estava me parecendo que tinha mais coisa por trás e eu acho que consegui descobrir.

- Como assim, mãe?

- Quando soube que estava grávida de você, me lembro que foram dois ou três dias só chorando. Claro que por razões diferentes das suas agora. Eu era casada, mais velha, já era mãe, tinha um emprego bom. Mas sofria pelo imprevisto, pelo susto, por ter sido pega tão no contrapé pelo o que não foi planejado, pelo o que não consegui controlar. Me sentia mal me achando uma completa idiota por não ter me precavido, por ter deixado isso acontecer. Chorava pelo San que perderia o meu “colo” tão novinho, pela Manu que levaria outra paulada com mais um bebê na casa, pela trampeira que seria ter três filhos etc.

- E aí?

- Aí que eu acho que o meu medo de então e o seu medo de agora, apesar de terem razões aparentemente diferentes, são, na verdade, o mesmíssimo medo. E também a mesma vaidade.

- [...]

- A vaidade ferida de não ter controlado o que, aparentemente, era possível controlar. E o nosso medo é o medo de o que somos, do jeito que somos e da forma que somos, não dar conta do que veio a ocorrer na nossa vida, no caso, a vinda desses filhos. O medo de não conseguirmos e aí envergarmos e aí quebrarmos, talvez morrer. Medo de morrer - no fundo. Não propriamente o morrer literal, mas também o morrer que é metáfora de se perder a vida como é, como estamos acostumadas.  

- Ai, mãe, esse seu papinho psicanalista às vezes é complicado demais.

- Eu sei. Mas essa sou eu, sempre com “papinhos psicanalistas” [risos]... Aliás, sem querer, acabei adiantando o que mais queria te dizer.

- O quê, mãe? [um pouco impaciente]

-  Contra esse medo só há uma luta possível: “comparecer com o seu ser.”. Essa é uma antiga frase da minha psicanalista que, só eu sei, já me alavancou de muita coisa. E se aplica totalmente aqui. O antídoto para esse medo do novo (mais: do novo que não foi previsto), o medo de não ser o suficiente, não saber o suficiente, não conseguir o suficiente, que vem junto com o medo também da mudança, é - e aí vai outra frase antiga, mas dessa vez daquela escolinha que a Manu fez o jardim de infância – “fazer do seu jeito”. A Manu, quando era pequena, vivia me repetindo isso. Eu dizia “Manu, faz isso direito”. Ela respondia “mamãe, eu vou fazer do meu jeito e também vou conseguir.” Eu ficava sem resposta.

- Então...

- Então, filha, eu virei sua mãe, tive três filhos, os dois últimos com muito pouca diferença de idade, e fui criando vocês “do meu jeito”. Tinha dia que dava, tinha dia que não dava (e aí só me restava esperar o outro dia chegar). Aos poucos fui aprendendo que, ao invés de ficar olhando pro vizinho pra ver se estava fazendo certo ou errado, tinha era que concentrar minha energia em buscar cada vez mais “o meu jeito” de levar a coisa, sem me comparar com ninguém. Claro que um jeito que pode e deve muitas vezes ser melhorado, e muitas vezes a forma de se melhorar é exatamente olhar pros lados e ver como os outros andam fazendo. Mas isso é distinto de se medir a partir do olhar do Outro, me sentindo mal por ser diferente.

- E aí?

- E aí que deu certo. Foi dando, vem dando. Talvez em muitas coisas eu dei uma volta bem maior do que o necessário. Ou não cheguei lá tanto quanto queria ou quanto fosse o ideal. Mas vivemos, um dia depois do outro, tombando, levantando, às vezes rastejando, de vez em quando correndo, dançando. Enchemos uma vida. E mais ou menos bem, como você mesma sabe.

- É... Nossa casa sempre foi uma casa boa de se estar. E não tem de quem eu goste mais na vida do que você, papai, San e Manu. Gostar, não só amar. Amar a gente ama muitas vezes só por que tem a ligação de sangue mesmo. Mas de vocês eu gosto, eu curto, eu quero estar perto, quero ser companheira.

- Escute, minha filha: se você se esforçar agora para descobrir a mãe que existe dentro de você, uma mãe única que não é igual a ninguém, uma mãe cheia de peculiaridades, boas e ruins, e possibilidades e impossibilidades também, o medo vai virar potência e todas estas circunstâncias ruins da sua gravidez vão ser acomodadas, mais tempo, menos tempo.

- Mas, mãe, sabe o que me bate também? Uma dor enorme por tudo o que eu vou perder sendo mãe agora...

- E vai perder mesmo. Não só agora, mas em qualquer idade, perderia. Mas vai ganhar, Clarice. Vai ganhar muito, filha. Eu tenho certeza do que digo e queria que você também tivesse. Mas isso aí você terá que descobrir por si mesma, abrindo esse baú que está prestes a abrir agora, experimentando ao que a vida te convida. Abra. Diga sim, filha. É o que de mais importante tenho pra te dizer.  

- Ai, mãe... [soluçando]

 

Ancorada no meu colo, depois de muito choro, Clarice dispara aqueles olhos para mim mais uma vez. Mesmo crescidos (adornos agora de uma mulher inteira) e no momento inchadíssimos, são os mesmos olhinhos do meu bebê, aqueles que me perguntavam, que me buscavam desde o primeiro dia. Sim, filha, é bom viver. E vai continuar sendo. Do seu jeito.