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sábado, 26 de abril de 2014

Sobre diferenças, murros e pontes.


Com a morte de Gabriel Garcia Marquez apareceu por aí a frase que ele teria dito quando levou um murro de Mario Vargas Llosa: "são as diferenças". 


Las diferencias... Se temos uma coisa em comum é a nossa diferença. Entre nobéis, entre mortais, entre todos. Alguém já disse e eu sempre me lembro: "mesmo entre as pessoas mais íntimas, abismos insondáveis".

A impressão digital dos dedos, o desenho da íris, dizem, são provas dessa radical unicidade de cada ser. Mais ainda, eu acrescentaria, o convívio. Os super convívios, os esparsos, os de só dez minutos: todos desafiados pela diferença. Também magnificados, mas isso vem mais para o final (do texto. De uma vida também? Melhor que não.).


"Narciso acha feio o que não é espelho" foi uma grande sacada de Caetano. O diferente de nós nos parece feio porque incomoda e incomoda porque faz a gente colocar um pezinho (ou ser defenestrado violentamente, tantas vezes) para fora do nosso confortável (ps: também tão perverso) narcisismo.
Um narcisismo que ganha em nós tamanho proporcional à insegurança do EU que ele tenta amarrar. Como inseguranças terríveis dão mais que xuxu na serra, fico só imaginando a quantidade de narcisões bombados e narcisas panicats rodando por aí. Medo!


Pois o diferente nos bota pra pensar sobre as nossas coitadas certezas, feitas, várias delas, de um arame tão fraquinho que ao menor espirro do outro o edifício pode vir abaixo.
Como não se defender ferrenhamente de uma ameaça dessas? Não só com unhas e dentes, mas um punhado de preconceitos também pode ser bem útil - aliás, certeza que todo preconceito deita raízes aí.

Sem falar da maledicência - ah, que essa precisava de um post, um livro, uma enciclopédia, uma biblioteca inteira tamanha é a sua expressão em ser sintoma da trombada com a diferença. Não basta rejeitar o diferente; para se livrar de vez do bicho-papão a estratégia por excelência é pichá-lo para deus e o mundo, e nisso somos mestres.

Conheço gente - você também, sem dúvida - que falam mal da mesma pessoa há anos e pelos mesmíssimos motivos. Sem falar dos que falam mal de quase todo mundo. Fosse só feio, mas acabam sendo também uns chatos.

Fico a pensar nessa insistência - porque essa repetição toda, é claro, está a dizer algo. Do que fala, não do(s) falado(s) - óbvio também. Como é possível ainda não ter desconfiado, nem um pouquinho, da inabalável verdade que sempre está a sair dos seus mais lindos lábios*?

Não vai desconfiar nunca, a não ser que decida encarar o pânico de altura que o abismo insondável do outro provoca na gente. Não desesperar. Não fugir desbaratado. Não se fechar em copas. Não dar um murro. Mas ousar se debruçar um pouquinho sobre esse abismo, depois mais um pouquinho, e talvez mais um pouquinho de novo. Devagar. Com olhos bem abertos. Coração. Com mais curiosidade que qualquer outra coisa. Generosidade também ajuda.  

E então, conta aí o que é que dá para ver desde esse lugar?

Deixa eu imaginar. O abismo continua firme e forte. Ok. Mas, opa, o que é aquela coisa comprida ali que vai até o outro lado? Uma ponte? Uma ponte! A paúra da altura quase que não te deixou ver. Enferrujada, empoeirada, meio cansada de esperar, mas lá está ela pra, ao seu menor comando, te conduzir ao outro lado (da história) e atravessar mão-a-mão contigo as suas inseguranças. As banais, as novas, as de sempre, as estruturais. Não vai ter muito como não as levar na bagagem, sabe, mas põe o pé na ponte que elas já não te brecam mais.

A diferença do outro e no outro que, a princípio, tanto assusta/machuca/enoja guarda essa surpresinha para os corajosos: encarada com vagar, curiosidade, olho e coração abertos e generosos, lança a jornada da gente a planos mais altos. E, desde lá de cima da ponte que se descobre poder haver entre mim e o outro, a vista parece ser incrivelmente mais bonita, rica, completa, e eu diria até divertida.

A quem consegue se aventurar assim no estranho território do outro, a esse sim, eu daria o meu Nobel.

 

*aqui aspas para o ótimo livro de Marçal Aquino que outro dia me caiu nas mãos "Eu receberia a pior notícia dos seus lindos lábios". Pra quem ficou curioso com esse título: irmandadedevenus.blogspot.com.br
 

 

 




quinta-feira, 10 de abril de 2014

O giro



Foi de saia rodada.

Coreografou linguagem com chistes e metáforas

Pra certeza nenhuma reinar.

Mas quando girou

Ouviu que só uma verdade valia.

Parou.

Respirou.

Chorou.

No seu mundo,

Alteridade dançava nos espaços de luz fugidia.