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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Etéreas


Tereza apareceu nesse dia com um vestido vermelho opaco. O corpo precisava estar coberto por cor discreta, mas bem certa, para que a cena fosse do chapéu de aba larga. Era um chapéu que parecia antigo e especialmente moldado para o rosto de Tereza, com ângulos tão bem desenhados quanto os seus olhos cor de azul mar. Essa era a Tereza que Ana viu sair do elevador e entrar no rol de entrada do prédio, com um livro pequeno de papel pardo nas mãos.

Elas se abraçaram com um sorriso. Apreciavam o recato dos gestos mesmo sabendo que o tempo lhes reservava sempre algumas poucas horas de ano para se encontrarem. E fazendo de conta que não havia fim para a tarde que entrava, saíram.

Escolheram, depois de um táxi e uma curta caminhada, um café com mesas mais juntas do que o usual. Elas vinham por pura coincidência de um lugar onde se cultuavam os segredos. Por isso acharam um bocado estranho conversar perto de tantas outras conversas.

Procuraram, assim, uma mesa de canto. Era-lhes difícil entremear. A comida e a bebida chegaram meio que em ondas telepáticas. O que importava era a tessitura das frases, que quando não flanavam, aterrizavam em silêncio. Era isso! Havia entre Ana e Tereza uma prosa em ritmo lento que permitia pausa, distração e encantamento. Não lhes cabia ali um cotidiano. Só o que sentiam lhes dava enredo.

O telefone de Ana tocou. Foram-se Ana e Tereza. Andaram e o sol ainda estava lá, quente e lhes dizendo que os seus esquecidos segredos haviam feito o presente voar.