Google+ Followers

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Mundo padrão Fifa - parte 2


Não, não vou falar de novo de futebol nem de política. Tenho que ter semacol, né.

Na verdade, desde o primeiro post "Mundo padrão Fifa", a intenção era falar do que vem agora. A história da copa, das manifestações e tal era pra constar só como introdução do assunto, mas como pensamento é trem desembestado solto, saiu como saiu. Teve que vir então a parte 2.

O meu assunto é a perfeição. Tenho pensado muito nisso ultimamente, tenho me flagrado falando muito disso ultimamente - imperfeitamente, claro.

Escrever aqui é uma forma, então, de organizar um pouco os pensamentos que vêm pipocando na minha cabeça a respeito dessa história toda e, assim, quem sabe, ir avançando nos meus imperfeitos.  

Só avançando, nunca escapando, e aqui já meto o pé na porta: se há experiência humana, ela é imperfeita; se há experiência humana, ele tenta se melhorar o tempo todo (nós tentamos melhorá-la).

É entre esses dois vetores que tudo debaixo do sol parece acontecer e, até aí, vá lá. Nosso contrato nesse mundo foi mesmo de adesão e as cartas mais importantes vieram dadas.

Então, tudo é imperfeito e a vida parece ser essa tensão permanente entre a resignação e a irresignação que se pode ter quanto a isso.

Aceitar o primeiro despressuriza que é uma beleza, mas também pode estagnar a um ponto de morte. O segundo costuma tirar a paz, mas também catapulta muita coisa importante.

Onde, quando, no quê e quanto você bota o pé de um lado ou de outro?

Não sei você exatamente, mas acho que a calibragem atual dessa tensão anda muito mal feita: nega-se, a todo custo, a imperfeição da vida; estamos obcecados pela perfeição, numa esquizofrenia coletiva para a qual melhor expressão não poderia ter me surgido ultimamente que "padrão Fifa".

É a vida "padrão Fifa". Reconhece? Claro. Certeza que você também está nessa roleta, jogando e sendo jogado. Tudo tem que ser muito limpo, organizado, planejado, catalogado, previsto, especialmente seguro, controlado... Que mais? Ah, a lista é longa.

Aliás, pausa: fiquei de cara ontem com tudo o que tive que ler e preencher para me inscrever no sorteio de ingresso pra Copa. Sou eu que tô muito antiga e reclamona, ou tem papel demais embalando essa balinha?

Volto.  

Sujeito em extinção é esse que consegue, em pleno 2013, não ter entrado ainda em surto, ou que não esteja muito do infeliz consigo mesmo,  pelo o quê, em sua vida, tenha lhe saído/esteja saindo feio, torto, gordo, sujo,  incompleto. Aliás, pior que isso, talvez o que mais horrorize geral hoje em dia sejam os “mais ou menos”: famílias que não sejam de margarina (mas funcionam), casais que não sejam exatamente tarados um pelo outro (mas funcionam), uma carreira que nunca estoure (mas funciona). Flagrante disto é o que fizemos com a palavra “medíocre”. Etimologicamente significa apenas algo correspondente à média, mas , no uso corrente, se refere sempre ao que é ruim, quando não péssimo.

E o que eu tô chamando de funcionar? O que traz satisfação. Aquilo em relação a quê você não deixa de ver imperfeições, mas que escuta aquela vozinha interna a dizer que está bom, que é legal; especialmente, que você está curtindo, apesar de qualquer coisa.

É a vozinha que é muito resignada e quer pouco da vida? Tem covardia aí ou tem sabedoria? Não sei. Isso só você, mais ninguém no mundo, pode responder. Mas dou um chute na bola pro seguinte lado: o que tomamos por real anda contaminado demais com o inatingível "Padrão Fifa".

Fico aqui a calcular quanta infelicidade não brota daí. É provável que quase toda.

Porque, que em algumas coisas brilhamos (por esforço ou por natureza mesmo), ah, brilhamos. Que há dias e momentos e até fases fantásticas que rolam com a gente, ah sim, muitas. Que tem uma ou outra relação na nossa vida de onde praticamente só vem coisa boa, ah tem. Que há gente com qualidades e capacidades fora do comum por aí, ah, tem sim.

Mas a maior parte do que vivemos, quando não é feia, torta, gorda, suja ou incompleta (ou tudo isso junto), está por ali, na coluna do meio mesmo, nem tão bom, nem tão ruim; nem tão bonito, nem tão feio; legal, mas com faturas a pagar; te satisfazendo, mas com coisas a aturar.

A maior parte de nós se sai razoável, e nem um dedinho a mais, em quase tudo que faz, em quase tudo que é, com um ou outro ponto de destaque aqui e ali. And that´s it.

Como disse Eliane Brum em uma de suas fabulosas colunas (essas sim com muito pouco de imperfeitas...), “é a vida, com sua mistura de tragédia e de comédia e um bocado de espaços vazios e de repetições.” (“A vida não começa aos 40” da coletânia “A menina quebrada”).

E isso não é problema. Não é problema a vida ser "na média", estarmos "na média" em inteligência, esperteza, beleza, paciência, sorte. O problema é achar que só isso não basta. Porque pode bastar bastante (ui, ficou horrível, mas é exatamente o que quero dizer). Dentro da "boiada" do mundo, o joy em viver pode ser enorme. Não é só o melhor que sai pra dançar. (aliás, esse, dependendo, está muito ocupando lustrando a sua perfeição). Sacar isso, sem sacanagem, é, pra mim, o maior pulo do gato que uma pessoa pode dar.

E por isso gosto tanto da expressão “suficientemente boa” do Winnicott, o Freud da psicologia infantil, referindo-se à mãe ideal, que não é a perfeita (quer dizer, a que tenta ser perfeita obsessivamente porque a perfeita existe tanto quanto papai noel).

Segundo ele, essa passa do ponto e também prejudica o filho tanto quanto, ou mais, que a negligente. A mais desejável é a que se sai suficientemente bem. Falha aqui e ali, dá as suas mancadas, cultiva uns egoísmos de estimação (principalmente, não se abandona), mas, no que é essencial, mais acerta que erra. É suficiente. E os filhos devolvem a ela a humanidade que não escondeu tendendo a ser emocionalmente mais sãos. Ele aposta nisso e eu, dentro do meu quinhãozinho de experiência, assino embaixo.  

Pois Winnicott fala da mãe suficientemente boa, e não perfeita, e eu estenderia esse conceito a tudo. Tento, nem sempre consigo, limitar meu interesse nos meus “desempenhos” à verificação do “suficientemente”. "Tá rolando satisfatoriamente?”, “é mais bom que ruim?”, ou o popular e maravilhoso “tem dado pro gasto?”. E, finalmente, "eu tenho me divertido?" - e diversão entra aí numa acepção bem larga. Mas confesso que a tentação de me ver querendo alguns pódiuns é grande –  (e tomara que você, se for o caso, também confesse e, assim, transparentes na nossa imperfeição, a gente abra espaço pra se livrar desses pódiuns fantasmagóricos de vez). O conto da carochinha plantado na nossa cabeça a esse respeito desde que nascemos, somado às novelas da Globo, à Caras e, mais recentemente, ao Facebook, dão um trabalho danado nesse sentido. Um porre.

Na verdade, ninguém anda tendo muita permissão (dessas de verdade, não da boca pra fora) para ser imperfeito - sequer mediano. Se minha beleza não chama grandes atenções, dale ralação, investimento pra isso. Se desconfio que não sou o cara fodão, (me) mato por um cargão, ou vou meditar de cabeça pra baixo no Himalaia (não interessa o que é eleito pra me sentir mais especial, interessa que a ressonância que se busca é a de fora, não a de dentro). Bonito o suficiente, inteligente o suficiente, dinheiro o suficiente, tô fora. Quero o melhor. Nem que o preço seja virar uma caricatura michaeljacksoniana de mim mesmo (e o rosto deformado não é o mais grave).

Enfim. Parece preocupante à beça quando o imperfeito é varrido tão pra debaixo do tapete assim. Nosso tapete tá ficando curto pra tanto bagulho. Vai sair voando - e cabe lembrar que quem voa em tapete normalmente é gente muito amarga... (;

Quando só o perfeito vale, só o perfeito importa, só pelo perfeito se justifica viver, a imagem que me vem é da gente aumentando ao máximo a chama embaixo da panela de pressão. Vai estourar. E aí o estrago na cozinha vai ser centenas de vezes pior que aquela porta do armário que não fecha direito, o que nos irritava seriamente e a gente não sossegou até consertar e tudo parecer de novo... perfeito.  

O ponto ótimo (e aqui a mania de perfeição acaba de me pegar no contrapé) parece ser esse sutil, delicado, difícil, mas importantíssimo entendimento. Tudo é imperfeito  - e isso, ao invés de entristecer, há de libertar. Tendemos a  buscar o melhor – e isso, ao invés de inquietar, deve dar é tesão. Conseguiu o melhor? Festa. Puxou demais pra conseguir? Perdeu. Não conseguiu? Bem-vindo ao clube: garanto que 90% da humanidade está com você (se bem que só metade compareceu; a outra, é fato, está ainda correndo atrás do rabo não conseguindo relaxar).

Ps: li e reli esse texto e tenho a sensação que ele está bem desconexo. De regra, esperaria até amanhã pra postar, ler de novo, tentar concatenar melhor as coisas. Mas, como exercício do que tentei falar, lá vai ele assim mesmo, arriscando ter saído um tanto "feio, torto, gordo, sujo" e certamente "incompleto".