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domingo, 21 de julho de 2013

O quintal do Juca


No quintal do Juca havia uma árvore tortinha. Num dos galhos, era fácil enxergar o ninho de um passarinho chamado Levi. Levi gostava de voar só naquele quintal. Não era lá dado a outros cantos. Diziam ser um pássaro pacato. Pra Levi não havia festa melhor do que o quintal se colorir com as flores que brotavam das roseiras.

Corria entre a bicharada um apressado boato. Diziam que o quintal do Juca havia sido esquecido pelo tempo. Que engano! A vida ali girava e muito. Porque não é qualquer quintal que recebe visita de cobra. No dia que ela apareceu foi um alvoroço. Era bicho com medo, bicho curioso, bicho espantado. A pobre da cobra, que era boa gente, achou por bem se aquietar e fazer o que mais gostava: observar. Foi, então, que notou que o passarinho Levi tinha as penas mais lindas que havia visto na vida. Eram penachos que a fizeram lembrar do seu maior desejo: uma saia colorida para a festa da primavera.

Como desejo não é coisa que se deva guardar em gaveta, a cobra logo teve a idéia de fazer sua saia com as lindas penas de Levi. E toda noite lá se arrastava a cobra até o quintal. Sorrateira e silenciosa ia até a árvore de Levi para arrancar-lhe uma peninha. Levi acordava assustado, mas na escuridão não conseguia enxergar quem era o astuto assaltante de penas.  

Noite após noite a cobra fez o mesmo percurso. Dia após dia uma pena foi arrematada na outra, tornando vivo o sonho imaginado.

Já o Levi, coitado, cada vez mais despenado, foi se entregando a tristeza. Nem mais as flores da roseira lhe faziam festa aos olhos. E o quintal do Juca acabou sendo esquecido mesmo pelo tempo como pensaram muitos. Só que o tempo não se esqueceu da cobra. Como velho amigo dela, bateu-lhe um dia na porta e disse: “sonhos não se roubam”. A cobra imediatamente ensimesmou e chorou um choro de cobra, um choro sem lágrimas. No mesmo dia lá correu a cobra até o quintal de Juca. Chegou taciturna na árvore torta, onde estava Levi, já quase esquecido pelo tempo.  Perguntou-lhe se sabia porque as penas lhe andavam tão escassas. Levi disse não saber. Imaginava estar doente, mas suspeitava que a noite um bicho qualquer, bobo mesmo, andava a lhe arrancar penas. A cobra perguntou por qual motivo o bicho era bobo. Levi lhe disse: “bobo porque mal sabe o bicho que no entrar da primavera há a troca de penas. Elas caem naturalmente aos montes.” Levi disse à cobra que não conseguia entender porque alguém precisava roubar algo que se dava de graça. Dessa vez, a cobra chorou um choro de gente, um choro com lágrimas. Em seguida disse a Levi: “sabe, Levi, você é um bicho bonito demais. Não é justo roubarem sua cor. Pode deixar que a partir de hoje passo a te guardar de noite. Peço-te em troca que me avise sobre a fase da troca de penas. É que sonho em ter uma saia de penas coloridas  para a festa da primavera. É um sonho muito antigo.” Levi, docemente, assentiu com o pedido.

Dali pra frente, Levi e a cobra nunca mais se separaram. Não houve primavera que a cobra não tenha usado uma saia de penas caídas naturalmente de Levi. Não houve primavera em que Levi não tenha  adornado sua árvore tortinha com as pétalas caídas das roseiras. Não houve primavera em que Levi e a Cobra não tenham dançado, embalados pelo amigo tempo, que um dia quase quis esquecer o quintal do Juca.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Mundo padrão Fifa - parte 1

(Esse texto vai pro tio Maurílio, pai da Mari, quem, além de grande torcedor do Galo, aos 70 anos completos, pegou outro dia um ônibus do Park Way a Santo Antônio do Descoberto "só pra ter a experiência...").


Não tenho conteúdo político/sociológico/filosófico suficiente para analisar devidamente o que andou rolando no país nos últimos tempos junto com a Copa das Confederações.
Mas tenho os meus pitacos.
E um deles é que o negócio começou por causa dos ônibus e tal, mas só virou o que virou por causa do futebol.
Tinha que ser ele, a vaca sagrada brasileira: o futebol.
Aproveitou-se, felizmente, pra se falar de tudo - escola, hospital, PEC 37, cura gay -, mas, pra mim, o que não desceu na goela do brasileiro mesmo, o que entalou, fez engasgar, e aí sim possibilitou vir pra fora um vômito completo, foi ele, o danado do futebol.
Curioso.
O brasileiro tinha, até então, se resignado, no bom e no mau sentido, em ficar de fora do básico da decência - comida, moradia, segurança, processos democráticos, governância honesta e tudo o mais. Até aí nenhuma novidade.
Mas do futebol, ah, do futebol foi desaforo demais. A gota d'água. O triz que faltava.
Porque em relação ao futebol todo mundo sempre se sentiu protagonista.
Inclusive, e especialmente, o que a gente chama de povão; quantitativamente falando, os mais brasileiros dos brasileiros. A maior parte dos jogadores é de origem humilde; em qualquer canto deste país, por mais miserável que seja, tem nesse momento uma dúzia de moleques roçando canela hipnotizados por suas bolas, ainda que por esse nome responda apenas um punhado de pano ou mato ou entulho enrolado.
Quem lota os estádios, nos dias de feijão com arroz (leia-se "de padrão Brasil"), é essa gente brava que deixou seu couro em algum lugar durante a semana inteira; ficou entalado no ônibus/trem/metrô umas três horas por dia para chegar no trabalho; foi pra fila do posto de saúde de madrugada mostrar pro doutor a tosse que não passa e não encontrou médico; mandou o filho pra escola mas ele voltou sem nada de novo pra contar.
Essa gente que quase por milagre sobrevive à semana, guarda um troquinho e, no domingo, vai pro estádio mandar tudo pro inferno, transferindo pro time um poder, um destaque, uma vitória que sabe que ele, por si próprio, nunca terá. Vai lá soltar os bichos, torcer, vibrar, se divertir, em possivelmente um dos únicos contextos que tem para isso. O circo que tem o poder de anestesiar, ainda que só por uns momentos, a injusta falta do pão.
Pois deixar esse pessoal de fora da prévia do maior espetáculo do futebol foi o fim (ou começo?).
No país do futebol, receber a Copa das Confederações aqui e os jogos continuarem tão inacessíveis a 90% da população como se estivessem acontecendo na Estônia tirou alguma coisa séria do lugar. Os estádios pareceram aguentar o tranco, mas o país pelo jeito não. Desabamos em manifestações.
E não foi só o cara que não conseguiu comprar o ingresso. O que comprou também se sentiu incomodado. Pra mim, a vaia na Dilma não foi outra coisa. Entrar no Mané Garrincha e ver que o jogo de futebol estava mais pra Rolland Garros do que pra futebol mexeu com todo mundo. Padrão Fifa, meu amor. É limpo, é seguro, é bonito, mas é de isopor, falta carne. Com o Brasil no cabresto da Fifa, faltou o nosso jeito de fazer festa (que também pode ser limpa, segura e bonita, além de tudo), o qual, com certeza, começaria por abrir os portões pra quem quisesse ir.
A verdade é que futebol sem massa nos pareceu muito mais ou menos. Até quem não é massa sentiu.
Imaginava-se tudo "na Copa", menos que ela poderia não ter essa graça toda. E tá aí uma coisa que com a falta o brasileiro não estava acostumado: graça.
Tamanha foi a estranheza que ele teve que ir pras ruas, teve que fazer a "festa" de qualquer jeito. Repare se essas manifestações, em alguma medida, não se pareceram com o que se vê em campo e nas torcidas. Uma sinergia, uma expansão, uma excitação. Impedido de gozar no estádio, deu-se um jeito de fazer o espetáculo; invadiu-se às ruas - e bandeiras não faltavam pra hastear.
Em um dos últimos rincões no Brasil onde não havia (ou não havia tanta) segregação e que por noventa minutos driblava-se a insuportável desigualdade, o brasileiro se horrorizou ao se perceber barrado no baile - baile que rolou em sua própria casa. E isso, me parece, fez pipocar o início do fim da tolerância em relação a tudo o mais que não se devia estar tolerando mesmo.
Ruim pro futebol, ótimo pro Brasil.
Vendo por esse ângulo, acho que nunca um torneio de futebol fez tão bem a um país sede. Paradoxalmente, talvez o dinheirão público empregado nessa perfumaria toda nunca tenha propiciado algo tão essencial a um povo: indignação e voz. Foi por acidente, foi a maior zebra, mas não deixou de ser uma goleada incrível.
Assim até eu, que confesso ter que fazer um certo esforço pra vibrar com "a pátria de chuteiras",  quando vejo já estou "imaginando na Copa", mal podendo esperar pelos próximos capítulos dessa história.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Estação "eternizar"


Foi uma semana de ventos frios e velozes, que por coincidência ou não fizeram do meu tempo uma corrida de gazelas. Já o sábado entrou curiosamente morno. Na estação de trem pude sentir assim as horas, os minutos, os segundos um bocadinho mais meus.  Ali não mais me importava onde o comboio me levaria. Bastava a sensação de estar sentada ao lado de um senhor, cujos pensamentos pareciam mais longes que os meus. No meu imaginário eu experimentava a impressão vagarosa que aquela Lisboa me pertencera em algum passado. Toda aquela gente mais velha, as muitas ladeiras, o Tejo azul, a pouca fartura de gerúndios, o ar melancólico eram massas de alguns tijolos da minha alma. E o que eu pedi ali, sentada naquela estação de comboio, era que eu apenas eternizasse.

Coincidência ou não foi, depois de sentir tudo isso, abrir o livro esquecido há uma semana e encontrar o seguinte: “Nunca gostei de aeroportos. Tão cheios de gente, tão sem ninguém. Prefiro as estações de comboio, onde sobra tempo para lágrimas e para acenar lenços. Os comboios arrancam lentos, suspirantes, arrependidos de partir. Já o avião tem pressas que não são humanas. E a lenda da minha mãe perde razão quando contemplo os aviões que se lançam pelos ares. Afinal, nem tudo é tão lento no infinito firmamento. (Mia Couto)“