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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Te pego "lá dentro"


Aquela babá que se demitiu aqui de casa logo depois das férias, ao responder a minha pergunta de porque iria sair, me disse sem rodeio: “eu tô achando muito cansativo.”

Senti na hora o cachorro bravo que mora dentro de mim espumar de raiva.

No momento não parei pra “ler” direito essa raiva; muito mais fácil foi sair colocando toda a culpa na sujeita, legitimando pra mim e pra quem mais me ouvisse toda aquela erupção interna.

Não é que ela não tivesse sido sacana comigo. Foi. Muito sem responsabilidade e consideração também – me deixou na véspera de eu voltar a trabalhar, sabendo que eu não iria ter, de imediato, onde deixar a minha menorzinha.

Acho que qualquer um teria ficado um tanto quanto puto, mas, se o problema fosse só a leviandade da babá, muito provavelmente rapidinho a coisa se dissolveria.

Mas comigo ali estava sendo diferente. No dia seguinte, eu me peguei sentindo... raiva, de novo. E no dia seguinte do dia seguinte também.

Isso me botou pra pensar, pois no meu rol de sentimentos negativos habituais, sentir raiva, e dessas que não vão embora, não é muito comum.

De onde está vindo tanta raiva? – me perguntava. Sem resposta que convencesse, melhorei a pergunta: “no que seu essa moça tocou tanto pra te deixar assim, Gabriela?”. Ah, agora sim, algo meu.  A babaquice foi dela, mas aquela gosma ruim toda vinha de algo que era meu e nada tinha a ver com a moça.

Não precisei de muito tempo pra descobrir qual foi a minha vulnerabilidade que a babá, sem saber, invocou com o que falou: a primeira a achar a rotina atual da minha casa muito cansativa sou eu mesma! E quantas vezes tudo o que eu mais queria era uma patroa pra chegar e pedir as contas; pra dizer, “olha, você me desculpa, eu tô achando tudo muito cansativo, vou embora, tá”. Ufa, que alívio.

Era daí que vinha aquela raiva toda. Aquela menina sem querer tinha escancarado, colocado em palavras, algo que eu combatia, negava: o cansaço que às vezes me bate, o saco cheio com os filhos, com a gerência da casa, com a vida adulta de uma forma geral em que às vezes me pego. Tá tudo muito bem, mas às vezes simplesmente it sucks. E se eu quisesse combater alguma coisa de verdade, quem eu tinha que chamar na chincha era eu mesma e não a garota.

Viver essa historinha realçou mais uma vez pra mim algo que já vi transparecer mil vezes, em mim, nos meus, nos trechos dos outros que pego por aí: o que gruda na gente, seja bom, seja ruim, nunca vem verdadeiramente do outro. O outro é só a “fonte física” da emoção. Essa, meu caro, encontra razões em você mais do que em qualquer outro lugar, pode ter certeza. Aquela coisa de a beleza estar muito mais no olho de quem vê do que no que é visto? Pois se aplica a muito mais : não só a beleza, mas a feiúra, o mal estar, a canalhice, o absurdo.   

Não que alguém não tenha o poder de te chatear, magoar seriamente até, com coisas que em nada se relacionam com os seus gatilhos internos. Não que não exista o que é triste por si, insuportável por si, maléfico e errado por si. Claro que sim. Mas quando a reação a isso passa do que poderia ser a de qualquer um, pode colocar a orelha em pé, pois ali tem algo seu, só seu, muito seu, que foi fisgado pela história e aí a fez ficar enorme. Vai encarar?

Então, quando a implicância é gratuita demais, quando a paixão arrasta mais do que o suportável, quando a dor de cotovelo não passa nunca, quando uma prosaica situação te deixa sempre no maior mau humor do mundo, o dedo que costuma sair por aí medindo todo mundo  tem que ter a humildade de se virar pra dentro. Se quisermos realmente aprender com aquilo, seguir essa pista nossa pra evoluir, sermos melhores, quem precisa ir pra retífica é a gente mesmo.

Elementar?

Nem um pouco. Poucas, pouquíssimas, são as pessoas que, quando em sofrimento meio desproporcional, têm a coragem, primeiro, de admitir que estão overeacting, e segundo, de subir no ringue certo: o próprio. A grandessíssima maioria, querendo ou não, prefere ficar metendo o pé na porta do outro, chamando pra porrada lá fora, na tentativa de arranjar um inimigo mais palpável, mais concreto e muito mais “derrubável” do que o euzinho sombra, baita covarde, que nos habita.

11 comentários:

  1. é bem isso mesmo, né? já somos tudo que somos, o mundo só reflete e espelha o melhor e o pior de nós. para sempre pra perguntar: mas eu sou SÓ ESSA EMOÇÃO mesmo, ou tenho outras coisas aqui? diante da resposta óbvia, fica difícil manter a cara de merde - o jeito é tirar a lupa da emoção (no meu caso, a tristeza) e achar no baú da alma aquele sorriso maroto que deixa tudo mais leve. :)

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    1. Adorei a pergunta, Fabi. Vou pegar emprestada. (:

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  2. Muito bom. O nome disso é maturidade. Parabéns : )

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  3. Adorei, minha irmã. Olhos marejados...

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  4. Muito legal, Bia! Ótimo o texto, lida com uma das coisas importante da vida, que é combater o próprio lado negro.

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  5. Sem usar o outro como desvio, né! Obrigada Guto! Muito bom te ver aqui!

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    1. Sim, o outro é espelho para tudo que incomoda! Depois de aprender isso o importante é usar como ferramenta, como você usou, por meio de questionar a razão do comentário ter incomodado tanto. O incômodo é seu, e vai muito além das palavras ditas.

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  6. Bia, meu amor, não sabia do blog... Vi hoje por acaso. Amei! E adorei esse post, especificamente, porque outro dia mesmo me peguei sofrendo com uma situação que, aparentemente, em nada me pertencia. E depois percebi que o problema tava era aqui dentro mesmo...

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  7. Sabedoria é isso!!!!! Parabéns!!!!!! E que a cada dia vc se renove e siga com sua missão!! Ser feliz!!!

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