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sábado, 19 de janeiro de 2013

Terapia intensiva

Passei essa semana inteira com minha avó de 92 anos numa UTI. Ela quebrou o fêmur e fez uma cirurgia. Por causa do alzheimer, precisou de acompanhamento da família 24 horas por dia. Isso em plena UTI. Eu, minha mãe e irmã nos revezamos. Ficar lá horas e horas foi intenso, para dizer o mínimo.
Minha cabeça fervia enquanto meu coração quebrava de quinze em quinze minutos.
Numa UTI sente-se a borda da vida encostando na nuca da gente. Parecido com as salas de parto, mas do outro lado do espelho e recheado do afeto contrário: na maternidade tudo é potencial, sonho e futuro; numa UTI, com o amanhã escorregando pelos dedos, a agonia do presente e, especialmente, a realidade do passado é o que bate à porta.
Eu olhava pros lados, olhava pra minha avó, e uma coisa não me saía da cabeça: viveram? Viveram bem? Isto é, conseguiram realisticamente dar uma boa versão ao que tiveram à disposição?
Ou mais suportaram do que viveram? Ou mais pelearam do que aproveitaram? Ou mais reclamaram do que reconheceram? Ou mais se retraíram do que amaram?
Não quero soar boba. Sei que, de regra, a vida é limitada e faltante - e pra muitos mais limitada e mais faltante ainda. Falo só do que é possível fazer das vidas ordinárias que recebemos, da forma como dá pra conduzir a coisa, desde lá da maternidade até... até talvez uma UTI.
Porque, mesmo pros mais esmagados, o espectro é amplo. Dentro de toda vida, acredito, as opções vidão e vidinha, e todas as milhões intermediárias, estão lá à disposição do sujeito. Há as escolhas. Sem entrar no mérito da existência ou não de verdadeira liberdade pra elas, com o quê sei que arrisco seriamente a validade do que é dito, acho que dá pra assumir que. sim, temos escolhas (uns mais, outros menos, a depender de mil coisas). Escolhas fundamentais, escolhas banais; são aos montes todos os dias. Escolho seguir numa discussão, escolho seguir num casamento, escolho não procurar nunca mais um amigo, escolho continuar a dirigir falando no celular, escolho não dar um tempo na bebida, escolho uma escola pra um filho, escolho trabalhar menos. E é comum se escolher mal muitas e muitas vezes seguidas. Não por não se desejar as coisas boas, mas por as querer só de uma determinada forma, na base da sorte, da trombada, da porrada ou do jeitinho. Por se querer mais estar certo (e assim ser reconhecido) do que qualquer outra coisa. Por se querer mais aplauso do que gozo, aquele íntimo e de verdade. Sofrimento, solidão, doença, confusão, deterioração: vidinha. E a conta vem - mesmo que só lá, numa sala de UTI, onde apenas o resto de vida dá pra ser entubado e mecanicamente ventilado, o passado não.
Coincidentemente (?), estando por ali, li o texto que rodou o FB esses dias de um psicólogo respondendo a um rapaz de 28 anos que está prestes a morrer e lhe escreve perguntando se ele teria alguma coisa para dizer a alguém em sua situação (https://www.facebook.com/#!/notes/frederico-mattos/o-que-falar-para-algu%C3%A9m-que-est%C3%A1-prestes-%C3%A0-morrer-nota-de-falecimento-de-r/10150339656827677).
"Morra o mais vivo que puder" foi o principal "conselho" do psicólogo.
Gostei muito. Me remeteu a uma morte apaziguada, com os bons sentimentos tendo vencido a parada. Mas fiquei pensando que o oposto "viva o mais morto que puder" é também uma dica e tanto, principalmente pra gente, esse pessoal como eu e você, que no fundo ainda duvida que vai mesmo um dia morrer.
"Viva o mais morto que puder", isto é, viva tendo sempre à mão da imaginação uma janelinha de UTI pra trepar e espiar a si próprio, lá dentro, pertinho do fim da sua curva do tempo.Olhe a cena. O que é mesmo que você gostaria de ter pra dizer pra essa mulher curiosa que disfarçadamente te olha e em silêncio te pergunta se você conseguiu viver bem?
Respire. Não tenha pressa. Escolha bem essa resposta. E escolha todos os dias.

7 comentários:

  1. Gabriela, acredito que esse é um exercício que todos deveríamos fazer diariamente! No ano passado, depois de receber um diagnóstico complicado, passei a me esforçar mais a viver cada dia de forma mais alegre, leve e plena. Tem dado certo e sei que essa é a forma que escolhi para seguir o meu caminho!
    Bela reflexão a sua e melhoras para a sua vozinha.

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  2. Lindo o que escreveu...sei que foi de coraçao la do fundo..um abraço em vc e irmã Carol ..Fabio Varela

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  3. Apertou o meu coração... me fez refletir muito(???)
    Parabéns pela mensagem e melhoras para a sua avó. Bjs Auri

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  4. Bia, curti :) Bjos, Malu

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  5. Seu blog é um doce de encantamento! Parabéns!

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  6. Gostei do blog, parabéns! Quando puder http://www.suicidasobrevivente.blogspot.com.br/

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