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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Mais galeteiros, por favor.


Choro à toa. Raro o dia em que não fico com os olhos cheios uma boa meia dúzia de vezes. A letra de uma música em que presto atenção no carro. Uma frase de alguém ou uma dada situação que imagino na cabeça. Uma cena que vejo em algum lugar. Uma tristeza ou um desespero qualquer que me atropela de uma hora pra outra. Tudo é motivo para aguar.
Mas o que me arrebentou o coração mesmo esses dias foi perceber que, assim que entrou dezembro, minha mãe trocou o galeteiro dela (aquele negócio que porta os temperos de salada etc. para a mesa, sabe?). No lugar do galeteiro de sempre, um de madeirinha branca com uma árvore de Natal aplicada. Bem simplesinho, um galeteiro de Natal.

É um pequeno ritual que ela repete nessa época do ano - trocar umas três ou quatro coisinhas de cozinha do dia-a-dia por umas que ela tem com o tema Natal. Um gesto mínimo, e provavelmente até distraído de minha mãe, mas, acho, de uma delicadeza e de uma esperança tão lindos que são quase insuportáveis. Chorei voltando do almoço em sua casa, pensando no que ela, minha surrada mãe e suas coisinhas, querem dizer com aquilo ali.

O que querem dizer, se é que querem dizer algo, não sei, mas o que ouço é sobre essa necessidade que temos de encarnar o Natal - mesmo assim numa coisa qualquer, até assim numa coisa qualquer. Não por motivos religiosos, porque esses nem todo mundo tem. Não pelas reuniões familiares, que não deveriam precisar de data certa pra acontecer. Precisamos encarnar o Natal porque é um dos poucos momentos em que está no ar uma moratória geral pra se sair por aí abestadamente namorando os outros, amando sem tanta proteção, perdoando mais, desejando com mais força, abraçando mais demorado, olhando ao redor com doçura extra, convencidos que dessa vez vai dar sim. Tendo mais esperança. Sendo mais delicado. Assim, como minha mãe e seu galeteiro de Natal. 

E precisamos tanto de respiros assim que não dá pra deixar passar fingindo que não vimos, fingindo que não é com a gente, desculpando-se com a descrença (ah, tudo isso é só consumismo ou dominação católica), com o cansaço ou com a pressa. É mais que perder uma oportunidade. É, meu caro, na minha pequena opinião, desperdiçar a verve da vida  (essa, que alimenta de verdade), coisa que, não importam os dígitos do 13º, ninguém anda podendo se dar ao luxo.

Meu desejo é então esse, para mim e para você. Que não fiquemos à margem. Mas que por esses dias, sem ter necessariamente nada a ver com comida, presente e confusão de família (como bem resumiu Dani Guima https://www.facebook.com/daniela.guima?hc_location=stream), desenterremos as nossas mais simples, e talvez mais puídas e mais escondidinhas também, esperanças e delicadezas. E que, de 2014 em diante, elas não esperem mais por nenhuma ocasião especial para serem tiradas do armário.

(texto escrito ano passado, mas atualizado com muito do que esse ano trouxe pra mim e que passa por esse blog que vai faz um ano agora em janeiro: o exercício de escrever e depois me deixar escrever por quem, depois do ponto final, continuou os textos com os tantos e surpreendentes comentários e depoimentos que recebi o ano inteiro. A esses - e especialmente à minha megablaster parceira de blog - vai aqui a minha mais esperançosa e delicada gratidão!)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Papai Noel que não me escute...

Lembro de achar engraçada a confusão. Tia Marinalva, jardim 2, 1980: a primeira coisa que tínhamos que fazer todos os dias era responder "- presente!" após ouvir a professora chamar o nome. Um por um, o clima era de uma certa insistência e disciplina. Alguém não atendia, e ela ficava lá, pronunciando o nome cada vez mais alto e mais silabado até que viesse da pessoinha um audível "- presente!". Eu era atenta a esse tipo de coisa (a tantas outras não tenho a menor dúvida que hoje receberia um indefectível rótulo de TDAH...), não deixava passar minha vez; ao contrário, ficava tensa, caprichando pra falar alto e direitinho. Só não entendia porque dizer "presente" quando ouvisse meu nome, pois presente pra mim era presente, e só. Não sabia o outro significado da palavra e achava então meio maluco falar de presente em voz alta pra turma inteira só porque a professora chamou meu nome.

Confesso não estar achando muito engraçada a confusão, não. Mas vamos lá. Vara criminal, Planaltina, 2013: lembrei da tia Marinalva. Sentindo um frio grande na barriga pelo desafio profissional que começou, tracei como estratégia uma só: eu vou estar presente. E vai ter que ser, sim, com uma certa insistência e disciplina. Pois agora, tal qual naquela salinha de jardim de infância, não vou deixar passar. Estão chamando o meu nome e eu quero caprichar - vou responder com o melhor grito de "- presente!" que conseguir.

"Comparecer com o seu ser" foi uma das frases da minha analista de mais efeito para mim nesses anos. Nem me lembro o contexto, mas hoje me serve pra quase tudo. Penso, aliás, que se tivesse um segredo na vida, um só, seria esse: compareça, esteja presente, nada pode dar muito errado se você estiver entregue. Quer dizer, que dá errado dá, mas quando é na nossa presença (ou com a nossa presença), a topada parece não arrebentar tanto com a gente quanto arrebenta quando acontece na nossa ausência ou, pior, pela nossa ausência. Estar nas situações por inteiro, estar com as pessoas nos detalhes, estar no quer que esteja acontecendo ao redor com o que sou, com o que não sou, com o que está dando pra ser por enquanto. Eu: presente e de presente.

Aliás, hoje, pra mim, nada mais coerente do que presente de estar presente ser a mesmíssima palavra de presente, regalo. Tem ou não tem tudo a ver chamar uma presença de presente? É um outro enfoque sobre o mesmo assunto que também tem me ocorrido muito: há coisa melhor do que alguém que se faz presente pra gente? Existe melhor presente? Não tem. É simplesmente irresistível uma pessoa realmente presente. E como nos faz bem. Fico pensando no tanto que tentamos acertar com os outros e com as coisas (ai Planaltina...) mediante mil e um malabarismos quando bastaria, e basta, estar presente. Comparecer com o seu ser e nem um centímetro a mais (melhor dizendo, a menos).

Nessa época em que presentes comumente se tornam uma obsessão, pensar nisso talvez gire a chave pra um lado mais interessante: quem sabe, de presente, me fazer presente? Sei não, mas o que deve ter de gente por aí chamando o nosso nome, uma, duas, vinte vezes, já silabou, já tentou falar devagar, sussurrando, agora anda gritando... E o que tem vindo de resposta? Tô mais praquela criança tímida do canto da sala que a professora nem escuta? Ou o distraído que, mergulhado na sua viagem, se aliena? Sou o que se irrita com a insistência do chamado ou, por essas inversões que rolam, faço que não quero ouvir só pra ouvir mais?

Bem que no fim da aula tia Marinalva sempre dava um deverzinho de casa mesmo...

domingo, 10 de novembro de 2013

O dia em que eu te encontrei


 

Certo dia você roia as unhas e no seu olhar a imensidão do mar era o que cabia. Eu sequer existia.

Numa foto, alguém captou uma travessia. Pra mim você ali não existia.

Era verão e eu lia. Você com palavras cruzadas ria. O mar não mais te envolvia. E assim eu pra você existia.

Silêncios abissais eu não compreendia.

Desencontros fatais: desses eu entendia.

Mas com rédeas fugidias, a chuva me trazia

você que só para o mar existia.

Na multidão você sumia e eu ouvia:

“Levante as mãos para o céu

E agradeça se um dia encontrar

Um amor, um lugar pra sonhar

Pra que a dor possa sempre mostrar algo de bom.

Eu ainda lembro o dia em que eu te encontrei.”
http://www.youtube.com/watch?v=MCObYSB2Mfk

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Desencontros íntimos


 Eram ventos lentos que levavam um intrépido momento.

O destino era um bem antigo alento.

Na ventania se misturaram o intrépido e o alento, o antigo e o momento.

Tentaram na vastidão se entender.

Suaram e se esticaram.

Mas sem cola não havia mais como compreender.

Cansados e  amargurados,

só lhes coube o encontro inventado

do velho entardecer.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O jardim de infância que Vinícius viu (por Vinícius Ladeira)

Hoje fui levar minha sobrinha ao jardim de infância. Aquele foi um momento mágico pra mim. E acho que pra ela também. Deve ter sido a primeira vez na vida em que andara no banco da frente. Calma, explico; meu carro possui só dois bancos! Fomos conversando por todo o caminho, eu tentando entrar no mundo dela, instigando sua imaginação pra fazer com que seus pensamentos saiam da caixinha, tentando criar nossa própria lógica. Sempre falamos coisas que, aos olhos leigos, não fazem muito sentido, mas no nosso mundo tudo faz! Assim, sempre pergunto pra ela se ela tomou banho na piscina de parede, ou se a tia Juliana ja tinha estudado prédio ou buzina na escola. O legal é que a conversa rende, e muito...
Naquela tarde seca de Brasilia, em pleno mês de agosto, entrei com ela naquele universo, mãozinhas dadas, mochila rosa nas minhas costas, e me deparei com uma pequena parte do céu. Isso mesmo, olhei aqueles pequenos 'capetinhas' correndo vivamente por todos os lados e só conseguia pensar que ali estava uma sociedade, que dali poucos anos, eles estariam no comando. Juízes, professores, médicos, engenheiros, todos ali, diante dos meus olhos, cada um podendo seguir o caminho que bem desejar.. cada pequeno ser humano com todas as possibilidades e escolhas ainda por vir, vivendo a inocência de uma idade em que nada mais importa senão contar pra tia que veio no banco da frente do carro, ou dividir com o coleguinha que nadou na piscina de parede aquela manha.
Vi ali tanto potencial de mudanças profundas nas atitudes, nas crenças.. quase uma folha em branco, do tamanho de um jardim de infância inteiro e alguém pronto para escrever a historia que bem desejar. A nós? Cabe apenas tentar conservar o mundo pra chegada deles em breve. Seremos os idosos que demandarão cuidados. Nós, no auge da nossa arrogância atual com os mais velhos, julgando conhecer mais e melhor as novas tecnologias, rapidamente seremos obsoletos aos olhos daqueles pequenos. Sai daquele lugar pensativo. Mas feliz por ter passado alguns minutos, tempo suficiente pra que uma parte de mim se misturasse aos demais para formarem um único e mágico, jardim de infância.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Chuva de molhar


Morros enlaçados por arbustos quase magros.

O tom era de ocre pincelado por gados a reboque.

Se o minério escondido pudesse falar

diria que por ali os deuses estavam a espraiar

um tal modo de olhar

que não deixava acelerar.

A moça que naquela terra nunca estivera

pôs-se num canto a chorar.

E aconteceu da chuva realmente molhar.

sábado, 12 de outubro de 2013

Encriançando

Não demorou muito e, depois que virei mãe, vi que ou eu tirava o pó da criança que fui ou a coisa ia ficar feia pro meu lado. Só ela, só essa minha criança, conseguiria se entender bem (bem de verdade) com a outra criança que tinha aparecido na minha vida. Quanto mais a adulta se calava e ouvia essa criança que ainda sussurra uma vozinha de vez em quando no meu ouvido, melhor ficávamos, eu e minha filha. Quando eu perdia a bússola de mim criança, meu passo de mãe desandava, deixando que regras, conselhos, exemplos dos outros, esse tipo de coisa toda viesse martirizar. Mas, quando, cansada de razão, a criança de dentro de mim ganhava espaço, essa sabia tudo do meu bebê e, se não soubesse, inventava, coloria, recortava. Essa criança de dentro entendia a minha de fora, como uma velha conhecida; sabia do que ela mais precisava; me dizia o que fazer com ela e, especialmente, o que fazer dela; sabia-lhe os medos e as alegrias, tinha a sua mesma lógica, seu tempo sem pressa, seu egoísmo perdoado. Aprendi: só o adulto que ainda tem sua criança  próxima de si vive em paz (paz de verdade) com uma outra criança ao seu lado. Podem reparar.
Mas não foi só a minha criança que foi resgatada quando me talhei mãe. Uma coisa ainda mais importante parece ter vindo de brinde: o resgate, no meu olhar, da criança de todos os outros.
Rolar a barra do FB essa semana e ir vendo as fotinhas dos amigos e conhecidos quando crianças me fez lembrar disso que saquei ao chegar tão perto de uma criança quanto uma mãe chega: ser criança não é só o começo de todo mundo; é a essência de todo mundo. Curioso, explorador, divertido, sincero, transparente, cheio de amor pra trocar, inocente, alegre. Muito prazer. Sou eu. É você. Podemos acreditar.
Muito Poliana?
Provável, mas, pra mim, hoje, dentro do mais mal-humorado dos homens, da mais babaca das chefes, do mais egoísta vizinho, da colega competitiva, do amigo sempre sacaninha e até da sogra maldosa etc. etc. etc. (bota etc. nisso), nada mais, nada menos, do que uma criança guardada no fígado, tocando o terror, fazendo birra, gritando por atenção, perdida, desorientada, apavorada, irritada, com medo dos monstros do seu quarto, cansada sem conseguir tirar o seu cochilo, com saudade da mãe que foi trabalhar, implorando um colo. Sim, acho que é verdade: a maior parte de nós, com os anos, só fica mais alta mesmo. De essencial, pouco muda.
E o que se faz com uma criança fora do prumo, histérica? Respira, respira, respira. Depois, olhos nos olhos, a gente faz o que deve fazer, mas ninguém, em sã consciência, é capaz de ficar seriamente magoado com aquela criança pelo seu mau comportamento por mais de cinco minutos. Dá raiva, dá um monte de coisas, mas, por não poder haver essa responsabilização toda, tudo passa muito rápido.
Não quero dizer que em relação a um adulto a gente não pode/deve responsabilizá-lo pelo "mau comportamento". É lógico. Aliás, é essa mesmo a linha divisória: a possibilidade de um adulto ser responsabilizado por seus atos e uma criança não - e não há coisa mais xarope do que os eternos Peter Pans, irresponsáveis e irresponsabilizados, que estão por aí.
Mas, olhando as carinhas sapecas do meu timeline dessa semana, aquelas estampas das crianças todas que fomos e ainda somos, penso que estamos sempre a levar a sério demais uns aos outros e a nós próprios. Responsabilizamo-nos e responsabilizamos demais, nos minando de tanta culpa, nos matando de tanta mágoa. É tiro pra tudo quanto é lado, rompimento, uma confusão danada.
Fico pensando que se a gente conseguisse, logo ali depois do respira-respira-respira, espiar numa brechinha do tempo a criança contrariada que está por trás desse olhar duro e trejeito arrogante do adulto na nossa frente, o que nos arrebatará é a compaixão - leveza também, de troco.
Sem falar na vontade de, conformados com o brinquedo que vai ter que ser mesmo dividido (não tem jeito), continuar a brincadeira. 



sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Traços no chão


Silencioso traçado em branco concentrado.

Formas solitárias com cores gregárias.

O amarelo deu nó no laranja do dragão.

E assim nasceu a imensidão.

Menino, conta pra mim por que desenha no chão?

É que sou lagarto de lápis na mão.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Medo


Nas nuvens me penduro.
O vento balança meu corpo.
Não posso cair porque o chão me diz muitos nãos.
Se alguém me colocasse asas,
voava sem medo de cair.
Mas foi o tal vão, livre então,
que fez do medo um jeito são,
pra poder voar e cair,
com e sem chão.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Mundo padrão Fifa - parte 2


Não, não vou falar de novo de futebol nem de política. Tenho que ter semacol, né.

Na verdade, desde o primeiro post "Mundo padrão Fifa", a intenção era falar do que vem agora. A história da copa, das manifestações e tal era pra constar só como introdução do assunto, mas como pensamento é trem desembestado solto, saiu como saiu. Teve que vir então a parte 2.

O meu assunto é a perfeição. Tenho pensado muito nisso ultimamente, tenho me flagrado falando muito disso ultimamente - imperfeitamente, claro.

Escrever aqui é uma forma, então, de organizar um pouco os pensamentos que vêm pipocando na minha cabeça a respeito dessa história toda e, assim, quem sabe, ir avançando nos meus imperfeitos.  

Só avançando, nunca escapando, e aqui já meto o pé na porta: se há experiência humana, ela é imperfeita; se há experiência humana, ele tenta se melhorar o tempo todo (nós tentamos melhorá-la).

É entre esses dois vetores que tudo debaixo do sol parece acontecer e, até aí, vá lá. Nosso contrato nesse mundo foi mesmo de adesão e as cartas mais importantes vieram dadas.

Então, tudo é imperfeito e a vida parece ser essa tensão permanente entre a resignação e a irresignação que se pode ter quanto a isso.

Aceitar o primeiro despressuriza que é uma beleza, mas também pode estagnar a um ponto de morte. O segundo costuma tirar a paz, mas também catapulta muita coisa importante.

Onde, quando, no quê e quanto você bota o pé de um lado ou de outro?

Não sei você exatamente, mas acho que a calibragem atual dessa tensão anda muito mal feita: nega-se, a todo custo, a imperfeição da vida; estamos obcecados pela perfeição, numa esquizofrenia coletiva para a qual melhor expressão não poderia ter me surgido ultimamente que "padrão Fifa".

É a vida "padrão Fifa". Reconhece? Claro. Certeza que você também está nessa roleta, jogando e sendo jogado. Tudo tem que ser muito limpo, organizado, planejado, catalogado, previsto, especialmente seguro, controlado... Que mais? Ah, a lista é longa.

Aliás, pausa: fiquei de cara ontem com tudo o que tive que ler e preencher para me inscrever no sorteio de ingresso pra Copa. Sou eu que tô muito antiga e reclamona, ou tem papel demais embalando essa balinha?

Volto.  

Sujeito em extinção é esse que consegue, em pleno 2013, não ter entrado ainda em surto, ou que não esteja muito do infeliz consigo mesmo,  pelo o quê, em sua vida, tenha lhe saído/esteja saindo feio, torto, gordo, sujo,  incompleto. Aliás, pior que isso, talvez o que mais horrorize geral hoje em dia sejam os “mais ou menos”: famílias que não sejam de margarina (mas funcionam), casais que não sejam exatamente tarados um pelo outro (mas funcionam), uma carreira que nunca estoure (mas funciona). Flagrante disto é o que fizemos com a palavra “medíocre”. Etimologicamente significa apenas algo correspondente à média, mas , no uso corrente, se refere sempre ao que é ruim, quando não péssimo.

E o que eu tô chamando de funcionar? O que traz satisfação. Aquilo em relação a quê você não deixa de ver imperfeições, mas que escuta aquela vozinha interna a dizer que está bom, que é legal; especialmente, que você está curtindo, apesar de qualquer coisa.

É a vozinha que é muito resignada e quer pouco da vida? Tem covardia aí ou tem sabedoria? Não sei. Isso só você, mais ninguém no mundo, pode responder. Mas dou um chute na bola pro seguinte lado: o que tomamos por real anda contaminado demais com o inatingível "Padrão Fifa".

Fico aqui a calcular quanta infelicidade não brota daí. É provável que quase toda.

Porque, que em algumas coisas brilhamos (por esforço ou por natureza mesmo), ah, brilhamos. Que há dias e momentos e até fases fantásticas que rolam com a gente, ah sim, muitas. Que tem uma ou outra relação na nossa vida de onde praticamente só vem coisa boa, ah tem. Que há gente com qualidades e capacidades fora do comum por aí, ah, tem sim.

Mas a maior parte do que vivemos, quando não é feia, torta, gorda, suja ou incompleta (ou tudo isso junto), está por ali, na coluna do meio mesmo, nem tão bom, nem tão ruim; nem tão bonito, nem tão feio; legal, mas com faturas a pagar; te satisfazendo, mas com coisas a aturar.

A maior parte de nós se sai razoável, e nem um dedinho a mais, em quase tudo que faz, em quase tudo que é, com um ou outro ponto de destaque aqui e ali. And that´s it.

Como disse Eliane Brum em uma de suas fabulosas colunas (essas sim com muito pouco de imperfeitas...), “é a vida, com sua mistura de tragédia e de comédia e um bocado de espaços vazios e de repetições.” (“A vida não começa aos 40” da coletânia “A menina quebrada”).

E isso não é problema. Não é problema a vida ser "na média", estarmos "na média" em inteligência, esperteza, beleza, paciência, sorte. O problema é achar que só isso não basta. Porque pode bastar bastante (ui, ficou horrível, mas é exatamente o que quero dizer). Dentro da "boiada" do mundo, o joy em viver pode ser enorme. Não é só o melhor que sai pra dançar. (aliás, esse, dependendo, está muito ocupando lustrando a sua perfeição). Sacar isso, sem sacanagem, é, pra mim, o maior pulo do gato que uma pessoa pode dar.

E por isso gosto tanto da expressão “suficientemente boa” do Winnicott, o Freud da psicologia infantil, referindo-se à mãe ideal, que não é a perfeita (quer dizer, a que tenta ser perfeita obsessivamente porque a perfeita existe tanto quanto papai noel).

Segundo ele, essa passa do ponto e também prejudica o filho tanto quanto, ou mais, que a negligente. A mais desejável é a que se sai suficientemente bem. Falha aqui e ali, dá as suas mancadas, cultiva uns egoísmos de estimação (principalmente, não se abandona), mas, no que é essencial, mais acerta que erra. É suficiente. E os filhos devolvem a ela a humanidade que não escondeu tendendo a ser emocionalmente mais sãos. Ele aposta nisso e eu, dentro do meu quinhãozinho de experiência, assino embaixo.  

Pois Winnicott fala da mãe suficientemente boa, e não perfeita, e eu estenderia esse conceito a tudo. Tento, nem sempre consigo, limitar meu interesse nos meus “desempenhos” à verificação do “suficientemente”. "Tá rolando satisfatoriamente?”, “é mais bom que ruim?”, ou o popular e maravilhoso “tem dado pro gasto?”. E, finalmente, "eu tenho me divertido?" - e diversão entra aí numa acepção bem larga. Mas confesso que a tentação de me ver querendo alguns pódiuns é grande –  (e tomara que você, se for o caso, também confesse e, assim, transparentes na nossa imperfeição, a gente abra espaço pra se livrar desses pódiuns fantasmagóricos de vez). O conto da carochinha plantado na nossa cabeça a esse respeito desde que nascemos, somado às novelas da Globo, à Caras e, mais recentemente, ao Facebook, dão um trabalho danado nesse sentido. Um porre.

Na verdade, ninguém anda tendo muita permissão (dessas de verdade, não da boca pra fora) para ser imperfeito - sequer mediano. Se minha beleza não chama grandes atenções, dale ralação, investimento pra isso. Se desconfio que não sou o cara fodão, (me) mato por um cargão, ou vou meditar de cabeça pra baixo no Himalaia (não interessa o que é eleito pra me sentir mais especial, interessa que a ressonância que se busca é a de fora, não a de dentro). Bonito o suficiente, inteligente o suficiente, dinheiro o suficiente, tô fora. Quero o melhor. Nem que o preço seja virar uma caricatura michaeljacksoniana de mim mesmo (e o rosto deformado não é o mais grave).

Enfim. Parece preocupante à beça quando o imperfeito é varrido tão pra debaixo do tapete assim. Nosso tapete tá ficando curto pra tanto bagulho. Vai sair voando - e cabe lembrar que quem voa em tapete normalmente é gente muito amarga... (;

Quando só o perfeito vale, só o perfeito importa, só pelo perfeito se justifica viver, a imagem que me vem é da gente aumentando ao máximo a chama embaixo da panela de pressão. Vai estourar. E aí o estrago na cozinha vai ser centenas de vezes pior que aquela porta do armário que não fecha direito, o que nos irritava seriamente e a gente não sossegou até consertar e tudo parecer de novo... perfeito.  

O ponto ótimo (e aqui a mania de perfeição acaba de me pegar no contrapé) parece ser esse sutil, delicado, difícil, mas importantíssimo entendimento. Tudo é imperfeito  - e isso, ao invés de entristecer, há de libertar. Tendemos a  buscar o melhor – e isso, ao invés de inquietar, deve dar é tesão. Conseguiu o melhor? Festa. Puxou demais pra conseguir? Perdeu. Não conseguiu? Bem-vindo ao clube: garanto que 90% da humanidade está com você (se bem que só metade compareceu; a outra, é fato, está ainda correndo atrás do rabo não conseguindo relaxar).

Ps: li e reli esse texto e tenho a sensação que ele está bem desconexo. De regra, esperaria até amanhã pra postar, ler de novo, tentar concatenar melhor as coisas. Mas, como exercício do que tentei falar, lá vai ele assim mesmo, arriscando ter saído um tanto "feio, torto, gordo, sujo" e certamente "incompleto".

sábado, 31 de agosto de 2013

(In) temperanças



Sigo devagarinho uma vida de pequenas andanças
Pego carona no voo dos pássaros e nado com os peixes
A calmaria da tartaruga aquieta o meu respirar
Quem me dera por um momento ter pés como os das corças
Elas andam em lugares altos e não ficam tontas
Mas é na velocidade do guepardo que corro para o alvo
Na bagagem levo a bússola que faz o norte virar sul
E eu já não sei se prefiro o leste ou o oeste
Só sei que sonhei os sonhos de criança
E que o sol que bateu na janela do meu quarto despertou-me já adulta
Travo uma batalha contra o diluído tempo e vou ao seu encontro
Reza a lenda que ele é o senhor do destino e um dos deuses mais lindos
Ele não engana e adverte haver pedras no caminho
Nelas tropecei e até caí
“Levanta-te e anda” é a voz que ecoa de dentro para fora, acalentando o coração
Mas também há flores e bem-te-vis
Há jardins, aromas e sabores no percurso
Nesse lendário calendário não há espaço para o inodoro, insípido, incolor
E o insosso nada atrai
Vida que é vida tem um punhado de temperança e uma queda pela insensatez
Vida que é vida traça novas rotas de sal e açúcar
Nem só de doce e salgado meu caminho se fez
Pimenta, gengibre, cravo e canela,
Misturam-se ao longo da estrada
Compõem novos passos de dança
Já não me importo se a linha do horizonte me distrai
O que importa é que nessa longa estrada eu vou
E que nessa estrada eu também sou tudo aquilo o que as minhas (in) temperanças me permitirem viver.
Caroline Sena

domingo, 21 de julho de 2013

O quintal do Juca


No quintal do Juca havia uma árvore tortinha. Num dos galhos, era fácil enxergar o ninho de um passarinho chamado Levi. Levi gostava de voar só naquele quintal. Não era lá dado a outros cantos. Diziam ser um pássaro pacato. Pra Levi não havia festa melhor do que o quintal se colorir com as flores que brotavam das roseiras.

Corria entre a bicharada um apressado boato. Diziam que o quintal do Juca havia sido esquecido pelo tempo. Que engano! A vida ali girava e muito. Porque não é qualquer quintal que recebe visita de cobra. No dia que ela apareceu foi um alvoroço. Era bicho com medo, bicho curioso, bicho espantado. A pobre da cobra, que era boa gente, achou por bem se aquietar e fazer o que mais gostava: observar. Foi, então, que notou que o passarinho Levi tinha as penas mais lindas que havia visto na vida. Eram penachos que a fizeram lembrar do seu maior desejo: uma saia colorida para a festa da primavera.

Como desejo não é coisa que se deva guardar em gaveta, a cobra logo teve a idéia de fazer sua saia com as lindas penas de Levi. E toda noite lá se arrastava a cobra até o quintal. Sorrateira e silenciosa ia até a árvore de Levi para arrancar-lhe uma peninha. Levi acordava assustado, mas na escuridão não conseguia enxergar quem era o astuto assaltante de penas.  

Noite após noite a cobra fez o mesmo percurso. Dia após dia uma pena foi arrematada na outra, tornando vivo o sonho imaginado.

Já o Levi, coitado, cada vez mais despenado, foi se entregando a tristeza. Nem mais as flores da roseira lhe faziam festa aos olhos. E o quintal do Juca acabou sendo esquecido mesmo pelo tempo como pensaram muitos. Só que o tempo não se esqueceu da cobra. Como velho amigo dela, bateu-lhe um dia na porta e disse: “sonhos não se roubam”. A cobra imediatamente ensimesmou e chorou um choro de cobra, um choro sem lágrimas. No mesmo dia lá correu a cobra até o quintal de Juca. Chegou taciturna na árvore torta, onde estava Levi, já quase esquecido pelo tempo.  Perguntou-lhe se sabia porque as penas lhe andavam tão escassas. Levi disse não saber. Imaginava estar doente, mas suspeitava que a noite um bicho qualquer, bobo mesmo, andava a lhe arrancar penas. A cobra perguntou por qual motivo o bicho era bobo. Levi lhe disse: “bobo porque mal sabe o bicho que no entrar da primavera há a troca de penas. Elas caem naturalmente aos montes.” Levi disse à cobra que não conseguia entender porque alguém precisava roubar algo que se dava de graça. Dessa vez, a cobra chorou um choro de gente, um choro com lágrimas. Em seguida disse a Levi: “sabe, Levi, você é um bicho bonito demais. Não é justo roubarem sua cor. Pode deixar que a partir de hoje passo a te guardar de noite. Peço-te em troca que me avise sobre a fase da troca de penas. É que sonho em ter uma saia de penas coloridas  para a festa da primavera. É um sonho muito antigo.” Levi, docemente, assentiu com o pedido.

Dali pra frente, Levi e a cobra nunca mais se separaram. Não houve primavera que a cobra não tenha usado uma saia de penas caídas naturalmente de Levi. Não houve primavera em que Levi não tenha  adornado sua árvore tortinha com as pétalas caídas das roseiras. Não houve primavera em que Levi e a Cobra não tenham dançado, embalados pelo amigo tempo, que um dia quase quis esquecer o quintal do Juca.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Mundo padrão Fifa - parte 1

(Esse texto vai pro tio Maurílio, pai da Mari, quem, além de grande torcedor do Galo, aos 70 anos completos, pegou outro dia um ônibus do Park Way a Santo Antônio do Descoberto "só pra ter a experiência...").


Não tenho conteúdo político/sociológico/filosófico suficiente para analisar devidamente o que andou rolando no país nos últimos tempos junto com a Copa das Confederações.
Mas tenho os meus pitacos.
E um deles é que o negócio começou por causa dos ônibus e tal, mas só virou o que virou por causa do futebol.
Tinha que ser ele, a vaca sagrada brasileira: o futebol.
Aproveitou-se, felizmente, pra se falar de tudo - escola, hospital, PEC 37, cura gay -, mas, pra mim, o que não desceu na goela do brasileiro mesmo, o que entalou, fez engasgar, e aí sim possibilitou vir pra fora um vômito completo, foi ele, o danado do futebol.
Curioso.
O brasileiro tinha, até então, se resignado, no bom e no mau sentido, em ficar de fora do básico da decência - comida, moradia, segurança, processos democráticos, governância honesta e tudo o mais. Até aí nenhuma novidade.
Mas do futebol, ah, do futebol foi desaforo demais. A gota d'água. O triz que faltava.
Porque em relação ao futebol todo mundo sempre se sentiu protagonista.
Inclusive, e especialmente, o que a gente chama de povão; quantitativamente falando, os mais brasileiros dos brasileiros. A maior parte dos jogadores é de origem humilde; em qualquer canto deste país, por mais miserável que seja, tem nesse momento uma dúzia de moleques roçando canela hipnotizados por suas bolas, ainda que por esse nome responda apenas um punhado de pano ou mato ou entulho enrolado.
Quem lota os estádios, nos dias de feijão com arroz (leia-se "de padrão Brasil"), é essa gente brava que deixou seu couro em algum lugar durante a semana inteira; ficou entalado no ônibus/trem/metrô umas três horas por dia para chegar no trabalho; foi pra fila do posto de saúde de madrugada mostrar pro doutor a tosse que não passa e não encontrou médico; mandou o filho pra escola mas ele voltou sem nada de novo pra contar.
Essa gente que quase por milagre sobrevive à semana, guarda um troquinho e, no domingo, vai pro estádio mandar tudo pro inferno, transferindo pro time um poder, um destaque, uma vitória que sabe que ele, por si próprio, nunca terá. Vai lá soltar os bichos, torcer, vibrar, se divertir, em possivelmente um dos únicos contextos que tem para isso. O circo que tem o poder de anestesiar, ainda que só por uns momentos, a injusta falta do pão.
Pois deixar esse pessoal de fora da prévia do maior espetáculo do futebol foi o fim (ou começo?).
No país do futebol, receber a Copa das Confederações aqui e os jogos continuarem tão inacessíveis a 90% da população como se estivessem acontecendo na Estônia tirou alguma coisa séria do lugar. Os estádios pareceram aguentar o tranco, mas o país pelo jeito não. Desabamos em manifestações.
E não foi só o cara que não conseguiu comprar o ingresso. O que comprou também se sentiu incomodado. Pra mim, a vaia na Dilma não foi outra coisa. Entrar no Mané Garrincha e ver que o jogo de futebol estava mais pra Rolland Garros do que pra futebol mexeu com todo mundo. Padrão Fifa, meu amor. É limpo, é seguro, é bonito, mas é de isopor, falta carne. Com o Brasil no cabresto da Fifa, faltou o nosso jeito de fazer festa (que também pode ser limpa, segura e bonita, além de tudo), o qual, com certeza, começaria por abrir os portões pra quem quisesse ir.
A verdade é que futebol sem massa nos pareceu muito mais ou menos. Até quem não é massa sentiu.
Imaginava-se tudo "na Copa", menos que ela poderia não ter essa graça toda. E tá aí uma coisa que com a falta o brasileiro não estava acostumado: graça.
Tamanha foi a estranheza que ele teve que ir pras ruas, teve que fazer a "festa" de qualquer jeito. Repare se essas manifestações, em alguma medida, não se pareceram com o que se vê em campo e nas torcidas. Uma sinergia, uma expansão, uma excitação. Impedido de gozar no estádio, deu-se um jeito de fazer o espetáculo; invadiu-se às ruas - e bandeiras não faltavam pra hastear.
Em um dos últimos rincões no Brasil onde não havia (ou não havia tanta) segregação e que por noventa minutos driblava-se a insuportável desigualdade, o brasileiro se horrorizou ao se perceber barrado no baile - baile que rolou em sua própria casa. E isso, me parece, fez pipocar o início do fim da tolerância em relação a tudo o mais que não se devia estar tolerando mesmo.
Ruim pro futebol, ótimo pro Brasil.
Vendo por esse ângulo, acho que nunca um torneio de futebol fez tão bem a um país sede. Paradoxalmente, talvez o dinheirão público empregado nessa perfumaria toda nunca tenha propiciado algo tão essencial a um povo: indignação e voz. Foi por acidente, foi a maior zebra, mas não deixou de ser uma goleada incrível.
Assim até eu, que confesso ter que fazer um certo esforço pra vibrar com "a pátria de chuteiras",  quando vejo já estou "imaginando na Copa", mal podendo esperar pelos próximos capítulos dessa história.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Estação "eternizar"


Foi uma semana de ventos frios e velozes, que por coincidência ou não fizeram do meu tempo uma corrida de gazelas. Já o sábado entrou curiosamente morno. Na estação de trem pude sentir assim as horas, os minutos, os segundos um bocadinho mais meus.  Ali não mais me importava onde o comboio me levaria. Bastava a sensação de estar sentada ao lado de um senhor, cujos pensamentos pareciam mais longes que os meus. No meu imaginário eu experimentava a impressão vagarosa que aquela Lisboa me pertencera em algum passado. Toda aquela gente mais velha, as muitas ladeiras, o Tejo azul, a pouca fartura de gerúndios, o ar melancólico eram massas de alguns tijolos da minha alma. E o que eu pedi ali, sentada naquela estação de comboio, era que eu apenas eternizasse.

Coincidência ou não foi, depois de sentir tudo isso, abrir o livro esquecido há uma semana e encontrar o seguinte: “Nunca gostei de aeroportos. Tão cheios de gente, tão sem ninguém. Prefiro as estações de comboio, onde sobra tempo para lágrimas e para acenar lenços. Os comboios arrancam lentos, suspirantes, arrependidos de partir. Já o avião tem pressas que não são humanas. E a lenda da minha mãe perde razão quando contemplo os aviões que se lançam pelos ares. Afinal, nem tudo é tão lento no infinito firmamento. (Mia Couto)“

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A casa do meu avô





Foi-se a casa do meu avô Adérito. Ruiu com a morte dele na lógica do tempo que segue, que não para. Sorte é que a memória não obedece à ordem cronológica do tempo e consegue fazer viver em nós um pouco do passado morto.  

Assim, na minha memória, ficou o olhar de uma Mariana criança que enxergava uma casa grande em Belo Horizonte, num bairro com sensação de interior. Era a casa do meu avó Adérito.  Lá eu percorria alguns cantos que considerava meus. Gostava de um tal bar que ficava num enorme salão. Chamavam-me atenção os espelhos dele e os tons misturados. Bar que pra mim combinava demais com os sofás grandes apoiados sobre pés de madeiras delicados. Eu achava aquilo tudo tão chique, que pensei muitas vezes que queria aquela sala pra mim.

A melhor parte era passar pela cozinha, sentir o cheiro do feijão da Dercília e descer a escada que dava para o quintal. Batia uma sensação forte quando eu via uma mangueira solitária no centro do quintal. Ela era enorme e dava uma sombra engraçada. Eu gostava de andar por ali e ficava intrigada como uma mangueira podia estar cercada por concretos. As raízes dela quebravam o cimento do chão. Era confuso! Um tanto de cinza no meio do verde. E a vida me ensinou que é assim mesmo, tudo meio verde, meio cinza.

Ficava curiosa demais com dois quartos que ficavam também no quintal. Um era o da Dercília, que trabalhava na casa. O outro era o do meu tio Zé Carlos, homem manso, que sempre ajeitou os belos cabelos lisos com os dedos das mãos.

O quarto da Dercília chegava a ser quase caricato. Bem arrumado, pra não dizer impecável e decorado com “posters” de revistas nas paredes. Não me lembro bem quem eram os artistas e cantores, mas do “Gilliard” nunca me esqueci. E havia uma mesinha com maquiagens de tons fortes, onde se destacavam batons carmins. Confesso que sentia vontade de lambuzar a boca com aqueles batons. Dercília tinha ares de mulher entregue ao amor pungente.

E no quarto do meu Tio... Ha, eu adorava aquilo lá. Era espaçoso e com um monte de livros e discos. Eu sonhava ter um lugar assim quando crescesse. E não é que hoje, crescida, gosto de casa com música e livros!

Era gostoso também me pendurar nos portões da frente da casa, porque eram bem baixos. Via fotos do meu pai por ali quando criança e adolescente e me punha a imaginar o tanto e como a vida dele correu por entre aquele lugar.

Meu consolo pra essa casa que só existe na minha memória é que também vou ter uma casa com uma mangueira. E espero que ela venha a existir na memória de alguém que, como eu, gosta de guardar pedaçinhos do passado. Afinal, passados bem guardados não passam!
 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Esqueçam os monitores


Há algumas semanas, tive a (digamos pitoresca) experiência de estar na Globo. Sou uma das coordenadoras de um projeto do tribunal, a Central Judicial do Idoso, e a Fátima Bernardes convidou a gente pro seu programa.

Das tantas novidades para mim naquela manhã, uma saiu martelando na minha cabeça. E ainda está. Dentro do estúdio, eles têm duas televisões suspensas grandes onde fica passando o que está sendo transmitindo para o telespectador. A tentação de você ficar o tempo todo checando o que está aparecendo (na verdade, checando se você está aparecendo, como está aparecendo etc.) é enorme. Só que se as pessoas que estão participando do programa ficarem olhando pras TVs mela tudo, porque o que vai aparecer é um monte de gente com o olhar perdido para cima - terrível. Então, a produção fica lá repetindo de cinco em cinco minutos o mantra: "esqueçam os monitores, por favor, esqueçam os monitores".

Bobeira? Sim. Ou não, a partir da analogia que me ocorreu.

Quantas vezes as pessoas estão nas situações (na festinha, no trabalho, nos grupos, na balada, até em família, até na intimidade) e, ao invés de estarem ali de verdade, estão é olhando pros monitores, isto é, preocupados ao extremo em saber como estão se saindo, qual a impressão estão causando, qual está sendo a provável visão externa sobre elas? Muitas, irritantemente muitas. E todo o resto se sente só cenário - e não pessoa, e não encontro, e não vida - pra essa pessoa.

Escrevi isso agora e percebi que me coloquei na posição de quem sofre o narcisismo dos outros e não de quem também fica comumente na fissura pela própria imagem. Soa melhor, né. Mas claro que não é bem assim; também me pego muitas vezes ausente "do programa", absorta na loucura pelos monitores. Lembrando-me dessas situações, sabe o que vejo nítido, além de a mim e ao meu buraco? O quanto perco o que está acontecendo ao redor quando não sou capaz de abrir a portinhola de mim mesma e estar para o outro, estar para o que estiver rolando, quando não paro de me olhar, não me despreocupo comigo. No mito de Narciso também foi desse jeito: de tão hipnotizado que ele estava pela sua própria imagem que se refletia no lago, perdeu a vida, definhando-se até morrer na margem (estaria certo também “à margem”...).

Ao contrário, quando penso nas pessoas que conheço que mais têm essa capacidade de se ignorarem, no bom sentido, que não ligam tanto para a sua imagem, para o que o outro vai devolver a ela sobre ela mesma, percebo o quanto são vivas. No meu monitor, elas acabam aparecendo em cores vibrantes e lindas, que coisa! Estão vivas e cheias de uma energia bonita. Talvez menos simpáticas, talvez menos agradáveis, talvez sem tanto verniz, talvez mais sinceras do que eu gostaria, mas mais vivas, sem dúvida nenhuma. Parece que, paradoxalmente, quem mais não se preocupa em encantar é, no mais das vezes, os mais encantadores dos seres. Mas não sabem. E nem querem saber.

Adolescente, um dia escutando uma dessas explicações "orgânico-morfológicas" para as coisas do tipo “a gente deve falar menos e escutar mais, por isso dois ouvidos e uma boca”, lembro de ter pensado algo que tem a ver com isso. Pensei no quão artefato, no sentido de não existir espontaneamente na natureza, é qualquer coisa que reflita nossa imagem (uma máquina de tirar foto, uma filmadora, até um espelho). Tirando uma superfície plana de água (que mesmo assim dificilmente reflete com nitidez), parece que o mundo foi feito para a gente não se ver. Agora, para ver os outros, para ver tudo ao redor, a gente foi muito bem aparelhado: dois olhos incríveis, com foco automático, capaz de captar zilhões de cores, de nuances etc. Não teria aí uma explicaçãozinha para o quanto contrário às leis do natural e da vida é ficar tão apaixonado pelo próprio “si mesmo”? Acho que sim. Eu, que na época era católica de carteirinha, lembro de ter fechado esse raciocínio pensando: é, talvez fosse sobre isso que Ele estava falando quando disse que o grande barato da gente por aqui deveria ser servir ao outro e não a si próprio.

De qualquer jeito, o certo é que grudar os olhos nesses monitores nos desfocam demais do essencial, nos atrasam muito pro nosso encontro com o real, nos roubam do agora, esse único que há, nos desenergizam. Vai que a Fátima passa a bola pra você e você não pega de tão abestado que estava lá, olhando pra cima, distraído fixado nos monitores. Não é pela imagem estranha que vai aparecer de você; mas pela chance daquela história ali. Você sabe, o programa é ao vivo, não tem ensaio, nem repeteco. Você perdeu. Tão preocupado em ganhar e perdeu. A vida tem dessas charadas.   

terça-feira, 28 de maio de 2013

Trocas


Com vocês dois que eu não me contente com o pão.

Que a verdade nunca vá para os cantos de um chão;

que seja dita, ensinando-lhes que dor não é em vão,

para vocês trocarem falta por um aperto de mão.

Um afago vem então.

Mas só isso, por favor, não.

Se não vier às pequenas bocas a voz do coração,

que eu a sinta como um clarão,

para trocar falta por emoção.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Sorrisos


Sorrisos fartos,

por todos os cantos estampados.

Ficaram discretos.

Tímidos vivem em esquinas ensimesmados.

Sorrisos internos.

Nos sonhos pretendem-se eternos.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O tamanho de um pai


Na última segunda, adornei meu cabelo com uma flor branca e coloquei o pé na estrada em companhia do meu marido pra fazer uma coisa que amo desde bem novinha: ir a um show de rock. Desta vez não era um show qualquer. Era o show do Paul McCartney, aquele moçinho, hoje senhor, de feições delicadas. Feições que provavelmente inspiraram a flor branca que escolhi para o meu cabelo.

O show foi mesmo delicado. Fez o que eu acho que a música deve fazer: reverberar. Era noite, mas se podia sentir luz indo e vindo das pessoas. Nessa onda “amorosa”, um amigo tocou no meu ombro, ao som de “Hey Jude”, e pediu que eu tirasse uma foto dele com o pai. Meu amigo estava visivelmente emocionado e no canto dos meus ouvidos disse: “tudo o que eu sei sobre música aprendi com esse cara, que faz cinquenta anos que ama Beatles”. Foi impossível não ficar com os olhos inundados de lágrimas. Na hora pensei no meu velho pai, que, desde bem pequena, eu via os olhos marejar ao ouvir o Chico Buarque cantar Construção. Não é à toa que a frase “morreu na contramão atrapalhando o tráfego” vez ou outra vem à minha cabeça, às vezes com, às vezes sem nenhuma conexão com o que estou fazendo ou sentindo. O que faz sentido é que a frase “morreu na contramão atrapalhando o trafego” casa o com o discurso “vermelhinho” do meu pai, que mesmo não conseguindo me fazer petista de carteirinha cravou em mim aquele olhar que procura algum tipo de conforto para os que nunca tiveram conforto algum e podem morrer na “contramão atrapalhando o tráfego”. Chuto aqui que o pai do meu amigo, ao ouvir os Beatles pronunciarem “take a sad song and make it better”, passou tanta emoção ao pequeno filho, que fez dele um homem que hoje transforma pedra em caminho.

Meu pai, o pai do meu amigo são aqueles tipos de pais que ocuparam um tamanho bom na vida dos filhos. Porque há pais que fazem sombra tão gigante nos filhos, que os deixam mesmo a viver em sombras. Lembro-me agora de Kafka dizendo em Carta ao pai, que seu pai ocupou quase todo o mapa do mundo e que lhe couberam alguns poucos espaços, nos quais ele mal soube existir. E os pais pequenos paradoxalmente produzem tão pouca sombra, que deixam seus filhos com a eterna sensação de estarem à deriva. Assim, pai de tamanho bom é que aquele que deita no mapa junto com o filho. As sombras que se veem são as de um no outro. Fácil, então, seguirem de mãos dadas a um show de “rock in roll” pra sentir lá no fundo do coração a música cantada pelo Paul McCartney, que desconfio também ter tido um pai de bom tamanho, nem tão grande, nem tão pequeno.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Escute aqui.


Tenho uma amiga que foi morar no Rio e sempre diz que carioca não sabe ouvir. Segundo ela, mal conseguem disfarçar a impaciência pra que você termine logo a sua fala e eles possam começar a deles. E costumam responder ao que você diz com uma outra história. Deles, é claro. Sabe aquela coisa de você contar algo seu e ao invés de encontrar alguém atento ao que falou, ouvir um "ah, mas comigo foi a mesma coisa. Ela... E também... Ele... E aí..." E aí que o que você disse já era, o foco já é outro e o momento se perdeu. Isso quando você não foi tesourado antes de chegar no fim, que é o mais provável.

Sempre concordo com ela, meio dolorida, meio envergonhada. Dolorida porque também sinto falta - e muita! - de bons ouvintes ao redor. É muito comum me flagrar falando pra quem só está esperando eu parar para chegar a sua vez de falar; pra quem não consegue conectar, sair da órbita de si mesmo. Tão corriqueiro quanto cruel, cruzes. E envergonhada porque, eu bem que tento, mas também me vejo muitas vezes não escutando direito quem fala comigo - ou pelo menos não escutando como acho que deveria.

Só discordo com minha amiga sobre os cariocas. Não são eles que não sabem ouvir; é o mundo inteiro. E a impressão que tenho é que está cada vez pior. Quanto mais barulhenta a vida fica, quanto mais apressada a vida fica, e nesses quesitos tudo só tem se abismado mais, maior a legião de surdos-falantes por aí. É bem deprê.

E por que essa compulsão por falar (que não permite ouvir)?

Pra existir, pra se sentir existindo – arrisco dizer.

Porque, verdade seja dita, a gente morre de medo de não existir, no sentido de não fazer muita diferença, não ser assim tão importante pra ninguém – muitos de forma crônica.

Ironicamente, os que mais precisam falar, e por isso menos escutam, possivelmente têm uma história de não escuta por detrás.

Imagino que em seus primeiros passos esse ser não foi ouvido ou, o que importa, não se sentiu ouvido. Quem estava ali do lado não deu muita bola para o que penso ser a mais primordial de todas as tarefas de um pai e de uma mãe (e aqui coloque qualquer outra figura estruturante de uma pessoa): colar o ouvido no peito daquela criança, daquele adolescente e... ouvir. Só ouvir. Não correr pra colocar palavras em sua boca; abrir espaço, ter paciência, para que as próprias palavras brotem, essas que lhe são únicas, de mais ninguém. E que quando brotem, encontrem do outro lado uma terrinha boa de respeito e uma mão jardineira de cuidados, pra não murcharem, mas crescerem, bonitas, frondosas. Que na sombra dessa árvore de raiz firme essa pessoa possa se abrigar para sempre.

Na falta da própria fala (lenta e bem recebida por um outro de olhos arregalados), pode ser que fique a impressão (nuns mais, noutros menos) de simplesmente não se existir.

E agora o morto-vivo, ou melhor, o vivo-morto, vai falar na marra e, como consequência, que se dane você que queria que ele te escutasse. Vira uma questão de vida ou morte – sem exagero.

Aliás, tenho sempre a impressão de se poder "medir" o grau de sanidade interna de uma pessoa pelo tanto que ela é capaz de ouvir. Quem já sabe que "existe" e está mais ou menos em paz com isso, não sente mais tanta necessidade de estar sempre abrindo a boca em jorros (e amordaçando o outro, consequentemente), na tentativa (com reload eterno) de (se) provar vivendo e sendo valioso pros outros.

Na época da faculdade eu fui voluntária do CVV (Centro de Valorização da Vida) por um ano. Era um trabalho voluntário sério. Antes de entrar, fazíamos um curso de dez sábados inteiros. A missão do CVV é a prevenção do suicídio atendendo ligações de telefone e então eu fui pro curso curiosa pra saber que palavras mágicas eles tinham na manga para nos ensinar que fossem capazes de demover um suicida de sua intenção.

A maioria das pessoas, claro, não ligava à beira de um suicídio, se bem que houvesse algumas. Mas ligavam, invariavelmente, para falar de solidão (ninguém o escuta mais?), tristeza (ninguém nunca te escutou direito?), desorientação (você não consegue escutar ninguém?).  

O que se fala para alguém que está pensando em se matar? Ou praquela que não fala em morte, mas te conta de um estado de tristeza insolúvel, de uma solidão irremediável? Não se fala, se ouve. Foram dez sábados batendo nesta tecla. Não havia nada para se dizer. Nenhum apelo, nenhum consolo. Tudo o que o CVV ensina para seus voluntários é: OUÇA. E devolva com falas que incentivem a pessoa a falar mais.

Depois de todos esses anos, o que ficou pra mim do CVV foi, além do impressionante tamanho do buraco das pessoas, o quanto “só ouvir” pode ser curativo. Milagroso, eu diria.

Hoje em dia, quando me pego em situações em que eu simplesmente não sei o que dizer (e eu sempre quero ter alguma coisa pra dizer, infelizmente), às vezes eu consigo me lembrar de não dizer nada; de apenas “comparecer com o meu ser” (essa é uma frase fantástica da minha analista), tentando dar passagem para a dor daquela pessoa ou para a situação delicada que ela veio contar, ou mesmo pra qualquer banalidade que quis dividir – se gosto dela, não existe presente melhor que me fazer disponível de verdade.

Várias vezes eu estou no meu trabalho e tenho que entrar numa audiência sem dominar direito o assunto (não é que juiz seja displicente, não, minha gente, é que como substituta é comum ser chamada de uma hora pra outra pra cobrir os outros nos lugares mais diferentes). Penso no que tenho pra fazer ali se sei tão pouco. Antes de começar a me sentir uma farsa, respondo-me: vou ouvir; vou dar atenção. Só isso. Juiz antes de ser lei deveria ser paz e paz costuma começar por aí. Se eu conseguir ouví-los bem, se eu conseguir decifrar o problema como se estivesse o explicando para um leigo, sem atropelar ninguém só pra reforçar para os presentes que continuo sendo a "autoridade", não deve ser tão difícil assim achar o caminho do bom senso. Dá certo, muito mais do que quando começo a falar de direito.

Aqui em casa também colho exemplos. Uma criança vem com uma demanda e eu não sei me posicionar. Deixo? Não deixo? Aqui faço vista grossa? Aqui pego no pé? Antes de agir, escutar - repito pra mim mesma. E a gente descobre frases enormes e pensamentos até complexos vindos de um menininho de menos de dois anos que ainda não fala mais que cinco palavrinhas. Vem disso me alinhar tanto com ele ali naquele momento que o que eu achava que cobrava de mim uma posição já fica em segundo plano. Somos amigos e entre amigos não há tanto dessas coisas.

Ouvir de verdade. Doar-se na escuta, no acolhimento, no esquecimento de si por um tempo para que o outro possa ter vez e voz. Parece pouco, mas é uma baita coisa. Tudo quanto é telefone dá sinal de ocupado hoje em dia; como é raro, meu Deus, que alguém atenda, diga somente oi, e te dê, generosamente, o tempo e a atenção dela. Em muitos casos, só o CVV é que vai responder a isso mesmo. A gente vai deixar?

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Leves, livres, soltos e sujos


Faz algumas semanas que notei que meu cachorro, mesmo em dias de chuva, só sai da varanda da janela do meu quarto quando a luz se apaga. Isso me comoveu a ponto de mimá-lo não só com mais carinho, mas também com a compra de alguns badulaques modernos de “pet shops”. Tenho que admitir que depois da “era materna” meus cachorros passaram a ser criados à moda dos anos oitenta. Explico. O “cachorro anos oitenta”, nas exatas palavras da minha parceira de blog Gabriela, é aquele cachorro criado com digamos bem poucas frescuras. Come ração com discretos detalhes na embalagem. Ele também dá conta de triturar ossos de restos de almoço e o banho, se não tiver shampoo, segue com o tradicional sabão de coco. Ele costuma se refestelar na terra e pode acontecer de comer alguns bichinhos do mato pra relembrar seus instintos, como bom animal que é. E quem o conhece e o vê tão livre sabe que ele costuma ser bem feliz.
Confesso que ao pensar no cachorro anos oitenta imediatamente me vem à cabeça o jeito de criar crianças da atualidade. Deixo claro que não estou comparando crianças com cachorros. Aliás, comparações são sempre muito chatas e cabem bem só lá nas pesquisas científicas. Apenas quero dizer que o sintoma social atual da perfeição resvala para todo tipo de cuidado, seja com crianças, seja com cachorros. E com crianças a obsessão, não tenho dúvida, é ainda maior. Da alimentação ultra balanceada à escola perfeitinha, do pediatra rigoroso até mesmo com chupetas à festa de aniversário nos trinques, da viagem adequada à faixa etária da criança aos brinquedos para estimular isso e aquilo. Quem paga a conta de tanta exigência? Nós todos. Nossos filhos também, nos entregando um cheque talvez cifrado de muita ansiedade. E por isso, cá do meu cantinho de atual dona de cachorro anos oitenta, talvez por pura pressão da falta de tempo, começo a pensar o quanto nossos filhos ganham com esse jeito “easy going” que ficou lá pra trás. Porque nenhuma criança teve sérios danos físicos e psíquicos por beber mingau até três anos de idade, por usar chupeta até quatro anos, por tomar banho de chuva na piscina, por ficar sujinha e sem tomar banho num dia qualquer, por passar um dia de domingo comendo porcaria, por rolar na terra só para saber a sensação que isso dá.
A conta de quem vive com menos paga-se com leveza. Essa lição eu queria ter praticado desde o primeiro dia do nascimento do meu primeiro filho. Só que tive que reaprendê-la. Pra falar a verdade ainda a aprendo todos os dias e com bons professores. O primeiro deles é meu marido, que nas suas andanças por esse Brasil de dentro, me ensina, às vezes de modo “brabo”, que crianças necessitam de muito menos do que imaginamos. O segundo deles é minha amiga irmã Gabriela, que não é lá dada aos matos da vida, mas não perdeu ao longo dos anos o velho instinto e por isso sabe bem que crianças precisam mais de um par de olhos e ouvidos atentos do que de uma parafernália de cuidados. Melhor então não cuidar de tudo, que tem custo alto demais, mas sim do essencial, que não raro é invisível aos olhos e por isso mais difícil de ser compreendido e assim verdadeiramente cuidado.
 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Do amor sem vácuo


Depois de falar de casamento, queria falar de amor. Amor de casamento. É mais do mesmo, só que não.

Depois que virei mãe, tenho uma teoria difícil de sustentar a esse respeito. Eu sei que pode soar como um baita engano. E talvez seja mesmo. Mas, fazer o quê, quanto mais tempo de casada passa, quanto mais tempo sendo mãe passa, mais faz sentido pra mim: tenho a íntima convicção de que o amor entre um casal, para que seja desses que realmente levam alto, fundo e longe, tem que ser parecido com o amor que temos a tendência a sentir pelos filhos.

Também acho: à primeira vista, parece horrível. Mas deixa eu tentar explicar um pouco.

Não é virar mãe do marido ou pai da esposa - isso seria uma troca de papel mortal. Mas é amar esse/essa aí do travesseiro ao lado com as forças e as feições do amor por um filho.

Continuo me explicando.

Quando me aconteceu de ser mãe, muitas outras coisas vieram na carona. A maior parte é bem comum e muito se comenta sobre elas. Mas pouco se fala do que pra mim foi o mais revolucionário de tudo: o modelo de amor que ganhei.

E amor tem modelo? Queria poder dizer que não, mas, na verdade, acho que é bom que tenha. Vê se não é: se a gente deixa o amor acontecer só do jeito que lhe toca, sem depurá-lo, sem desembaraçar-lhe os cabelos e abrir-lhe as vistas, sem moldá-lo um tanto quanto (ou bastante, a depender), muita besteira pode vir daí. Porque nem sempre, talvez quase nunca, a gente sabe amar bonito, isto é, de um jeito saudável pra quem ama e pra quem é amado. De um jeito que não atarraxe o outro, mas o promova. Que  não se intimide, mas também não invada. Que não estrangule, mas solte, dê corda. Que mantenha os olhos mais na pessoa real do que na imaginária que vive na nossa cabeça. Que, que, que... é uma lista grande.

Quando me vi mãe, me vi amando da forma mais intensa e mais inteira que já amara. E também mais tolerante, mais esforçada, mais abdicada de mim mesma, mais mansa e mais um monte de coisas bacanas. Sem negar todas as muitas ambivalências do amor de mãe, fato é que eu não costumava conseguir antes voos desse nível com quem já amava. Foi inédito, o que não é muita novidade; muita gente fala de algo parecido. O que passa a ser singular nessa minha história é o que acho que entendi a partir dessa epifania toda.

A gente ama tanto um filho porque em relação a ele há a ilusão da não separação ou, inventando para melhor dizer, de uma não separatividade. Arcaicamente, consciente ou inconscientemente, o filho não é um outro, ele é a gente mesmo. Aliás, bem aí esse amor acaba perdendo muito do seu glamour: o amor pelo filho é o amor por nós mesmos. Continuamos ao redor do umbigo, só tendo mudado de margem.

Mas o meu ponto aqui não é o ego todo envolvido na raiz do amor mãe/pai-filho, porém o fato de que a força espantosa desse amor brota da premissa interna ancestral de não se sentir separado do outro, mas se sentir um com o outro.

Mutatis mutandis, a fraqueza (ou a feiúra) nas relações – eu acho que dá pra pensar assim também – vem da sensação de separação do outro. Em maior ou menor grau, a gente sempre se sente um tanto quanto separado dos outros e é nesse vácuo imaginário-psicológico entre mim e o outro que vagueiam todos os grilos relacionais, dos que mais incomodam aos totalmente inofensivos e corriqueiros. O outro que tenho que conquistar (às vezes todo dia); o outro que tem que me provar um monte de coisa e eu pra ele; o outro em quem confio-desconfiando; o outro que eu sei que vai pensar nele primeiro, antes de se importar comigo; o outro que eu acho que está me ignorando; o outro que eu acho que é melhor do que eu; o outro para quem eu queria ser importante; o outro de quem eu imagino coisas e que imagina coisas sobre mim; o outro que é realmente o meu inferno, você acertou na mosca, Sartre.

Mas não estamos separados (aliás, nem os filhos são tão pouco separados da gente, mas isso já é outra história...). Isso sim, é um enorme equívoco, pouco reparado, e daí raramente reparável - reservado a poucos que de fato parecem estar em suas últimas encarnações do tanto que conseguem exalar amor fresco, fácil, genuíno e colorido por onde quer que passem.  Tendo nossa condição humana sempre por debaixo dos pés, estamos todos no mesmo barco. Todos. Mesmo. Barco. E aí, tomando o que sentimos pelos filhos como molde, de quem temos a ilusão de sermos tão a mesma coisa, é possível se abrir para uma conexão em outro patamar com quem quer que seja, especialmente com esse/a aí do seu lado, que aterrisou na sua vida por razões tão insondáveis quanto os seus filhos: seu marido, sua esposa, seu companheiro, sua parceira, sem vácuo.

A partir do coração de mãe que ganhei, faço esse exercício sempre: e se fosse meu filho? Eu iria amar. Fosse quem fosse; independente dos seus méritos, das suas derrotas, das suas pernas tortas. Ele poderia agir como um idiota, eu iria amar. Não estou falando em ser cega, mas em amar e acolher. Ele iria me fazer passar vergonha, mas eu iria amar, amar e acolher. Ele iria ser detestável em vários momentos, mas eu iria amar, destestá-lo sim, também, mas amar ao mesmo tempo. Ele iria se perder, soltar minha mão, correr pra longe, se engaiolar; eu iria procurar, eu iria agarrar, eu iria esperar, eu cerraria grades. Pelo meu filho; pelo meu marido. Um amor sem tantas condições, sem tantos caprichos. Um amor que é sentimento, é paixão, é desejo, mas que também dá um jeito de se combinar com uma espécie de trato, compromisso, missão.

Eu sei que é muito difícil compactuar com algo assim, que até da admiração pelo outro, em vários momentos, pode prescindir. E que, numa cultura em que tudo é baseado na sedução, da pipoca de microondas ao design da sobrancelha, uma coisa dessas é blasfêmia das mais horrendas.

Mas, sinceramente, é só num amor com essa envergadura que de uns tempos pra cá venho acreditando e, só para lembrar, parece que São Paulo também:

Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como sino ruidoso ou como címbalo estridente. Ainda que tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, nada seria. Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse amor, nada disso me adiantaria. O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade.Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência também esaparecerá. Pois o nosso conhecimento é limitado; limitada é também a nossa profecia. Mas, quando vier a perfeição, desaparecerá o que é limitado. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei adulto, deixei o que era próprio de criança. Agora vemos como em espelho e de maneira confusa; mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido. Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor.






 

 

sábado, 6 de abril de 2013

Saudade de felicidade


Durante a semana que passou recebi uma avaliação do meu filho. Em uma das partes da avaliação ele tinha que falar sobre o que mais gostava em mim, quando se colocou a contar à avaliadora que adorava quando eu lia livros para ele na hora de dormir. No meio da conversa, deu detalhes de uma história que eu havia lido para ele uma única vez.

A historinha, que conheci no dia que li para meu filho, falava de uma menina que tinha um pássaro de penas coloridas que vivia numa gaiola, cuja portinha sempre ficava aberta. O pássaro voava para onde queria e ao voltar à gaiola trazia para a menina uma novidade diferente do mundo. Mas a menina, a cada vez que o pássaro voava para longe, chorava muito.  Desesperada, resolveu prendê-lo na gaiola. Não funcionou. O pássaro engaiolado passou a ficar cada dia mais triste. Suas penas coloridas foram ficando cinzas e chegou um dia em que ele parou de cantar. A menina só, então, entendeu que precisava soltá-lo. E o soltou. Sentia saudade quando o via partir e ficava imensamente feliz quando ele voltava colorido com sua cantoria sobre o mundo.

Rubem Alves fez essa história para uma criança que viu chorar ao se despedir de alguém. Fez também a história para a menina que vive em mim. Os livros são mesmo assim. São feitinhos de vivências e ideias pessoais que acabam por encontrar morada em gente de algum lugar, de algum tipo, com cinco ou trinta anos de idade.

No meu caso, o tal livro foi daqueles que aconchegou de jeito emocionado no meu peito. É que há alguns poucos anos eu, achando tomar a decisão mais acertada do mundo, convenci meu marido a fazer um mestrado para ficar todo o tempo em Brasília. Pensei que nesse período seria também fácil convencê-lo a mudar de estilo de trabalho, fazendo talvez um concurso público que o deixasse de vez por aqui. Acreditava ser a fórmula perfeita para não mais ter que lidar com idas e vindas, aeroportos constantes, partidas doloridas, choros desesperados do meu pequeno filho vendo o pai partir quase que constantemente. É verdade que com o mestrado seguiu-se um tempo de raras despedidas. Não sei bem se ali se sentiu menos saudade, porque o meu marido foi mudando de textura. Suas penas foram ficando acinzentadas e a fraqueza tomando conta dele até não mais cantar uma só música. E aí bateu a saudade de vê-lo feliz. Tive que, como a menina do Rubem Alves, abrir a porta da gaiola de casa. Meu marido voltou a ir e vir. Afinal, com desejo não se pode brincar de prender. É preciso deixar partir quem ama voar. Só que sustentar o desejo do outro é tarefa das mais difíceis. Quantas e quantas vezes interpretei o desejo de estar no mundão como falta de amor. A sorte é que a idade vem me mostrando que amar é pessoal demais. Assim, ando conseguindo entender melhor o vai e vem do meu parceiro de vida. Eu sei que meu filho, ao vê-lo partir, às vezes chora muito, às vezes chora pouco, às vezes nada chora. Só que quando o pai chega, ele sempre e sempre e sempre fica muito feliz. E entre os dois, por aqui, há sempre e sempre e sempre muita alegria. Muito mais alegria que tristeza. Já eu nem sempre fico tão feliz. Não sou tão sábia quanto meu filho e a menina, que sabem que amar é deixar livre. Confesso que, vez ou outra, fico querendo o pássaro lá na minha gaiolinha, todo santo dia. Quem  sabe um dia eu chego lá, lá no lugar onde a saudade se encontra com a felicidade, que “é só uma questão de ser”, como canta Marcelo Jenesi.
http://www.youtube.com/watch?v=s2IAZHAsoLI

terça-feira, 2 de abril de 2013

Os silêncios que queriam sonhar


Os silêncios acordados imploravam por sonhos. Como não sabiam falar, dançaram para o sono, um dos donos dos sonhos. Dançaram sem música. Afinal, eram silêncios. 

O sono bateu na porta e, sem entender bem aquela dança desacompanhada de música, perguntou aos  silêncios se faziam cinema mudo.  Os silêncios, porque não falavam, não puderam responder que era dança o que haviam feito. Mas ao ouvirem o sono conseguiram dormir. E finalmente sonharam. Sonharam com silêncios que dançavam com música.   

sexta-feira, 29 de março de 2013

casamento

Se existem duas coisas certas em relação a ter crianças é que, primeiro, elas vão te interromper e, segundo, elas vão te interromper muito e o tempo todo (eu disse duas coisas?). Seu sono, seu almoço, seu telefonema, o caso que você está contando, seus planos pro final de semana. Até quem não tem filho entende - basta já ter tentado conversar com uma mãe com criança pequena por perto: é tanta picotação de assunto que dá até vertigem. Melhor achar engraçado.

Por isso, depois de cinco anos de intensas interrupções, dos quais o último foi uma coisa de doido, me flagrei sentindo um negócio esquisito ao ficar mais tempo a sós com meu marido dia desses: medo.

Estávamos indo para BH para o casamento de um amigo. Ao descer do carro da minha mãe no aeroporto, vendo os rostinhos de choro de nossas crianças encostados no vidro, ao invés do costumeiro "ufa-a-gente-bem-que-merece-esse-descanso!", me peguei sentindo... medo.

E de quê, o medo? Era evidente: medo de perceber que a gente virou algo tão coletivo que não sobrou nada como casal. Medo de termos nos perdido e não saber nem mesmo onde. Interrompidos. Fatalmente  interrompidos.

Não foi um medo assim tão grande. Um medo tranquilo até, se é que isso existe. Mesmo do meio do nó, dava pra enxergar que era algo muito mais relacionado à minha tendência apolíptica com tudo que tem a ver com casamento do que com a nossa realidade.

De todo jeito, era um sentimento novo pra mim e me botou pra pensar.

Mas fui interrompida.

Dessa vez não pelas crianças. Mas por ele, esse moço bonito com quem estou casada há já um monte de anos.

Alheio ao meu turbilhãozinho interno, ele passou a mão na minha cintura e, sem mais nem menos, enquanto colocava a minha bolsa no raio-x, recomeçou uma conversa comigo de algo muito dele, duro, íntimo, difícil de falar. Assim, do nada, passou pelo ponto final, tascou um ponto e vírgula e ignorou qualquer hiato que existisse entre a gente. Só fomos parar de novo a conversa já dentro do táxi em Belo Horizonte.

Vi meu medo encolher de vergonha. Vergonha pelo raso que havia sido. Vergonha por ter se esquecido de algo bem básico que já tinha aprendido. Que a intimidade, as grandes intimidades, são peritas em construir pontes altas, altíssimas; as interrupções, ao menos essas que vêm de fora da gente, não as conseguem alcançar. E por elas o amor costuma atravessar, são e salvo.

Isso me lembrou o poema "casamento" da Adélia Prado, não por acaso lido no nosso casamento. Em um trecho ela fala sobre o "rio profundo" que atravessou a cozinha quando os cotovelos da esposa e do marido se tocaram ao limparem os peixes que ele trouxera da pescaria. Nas palavras sensíveis de Adélia, naquele instante voltaram a ser "noivo e noiva".

Pois ali, com essa conversa de "rio profundo", eu e ele havíamos nos reencontrado mais uma vez; "noiva e noiva" de novo.

Disto me veio uma coisa. O quanto a gente enaltece o "primeiro encontro", o "achar quem" do amor, e nem percebe os incontáveis reencontros depois de que uma história de amor vai ser necessariamente feita (falo em história; ensainhos de amor, ah, esses vão ficar sem reencontros mesmo).

E aí, como não percebemos, acabamos não investindo, não inventando, não aprendendo como fazer, não se colocando numa posição propícia a. Passivos, a maioria costuma ficar só na reza mesmo pra que aquela paixonite do início consiga tudo por si só.

Nada mais anti-casamento.

Não passou muito e já tínhamos chegado no casamento do Otávio e da Mariana. Um desses com start bonito, festa bacana e tal, mas que o que mais me emocionou mesmo foi a sensação que tive de que o casal ali sabe o que está fazendo. Que estão dispostos a responder sim um pro outro mais um milhão de vezes, a se resgatarem sempre que preciso, a protagonizarem outros tantos casamentos, dessa vez sem glamour e sem plateia, no silêncio de uma braço que alcança uma cintura, de uma conversa que só se pode ter com aquela pessoa, de cotovelos que se esbarraram durante o mais trivial do dia e te levam pra outro lugar.

Assim, sem muita interrupção.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Dito


Dito a elas por ela o que não se podia dizer.

Sentido por elas como se eles estivessem a dizer.

Logo ela que parecia nunca falar como eles.

Dizem que ela ali deixou de sentir.

Foi não.

É que aquele dia era dia de não dizer.

E em dia de não dizer acontece de dizer o que não se quer dizer.

Só não dá pra dizer que não há sentido no dizer o que não se quer dizer.
 

domingo, 24 de março de 2013

Tarde que cai. Carinho que vem.


Caía a tarde. Provavelmente voltando do cinema, um casal descia as escadas rolantes. Ela estava no degrau de cima e ele no de baixo. Ela envolveu as costas dele com seus braços e recostou sua cabeça nos ombros dele como se fosse o lugar mais seguro do mundo.  Nos dois já se viam cabelos brancos. Nos dois as rugas marcavam mais de cinquenta anos vividos.

Do outro lado, eu subia as escadas rolantes.  E vendo o casal me perguntava: são os dois casados há quanto tempo? São namorados? São casados e namorados? Têm filhos? Têm netos? Como se conheceram? Não pude saber.  Só pude saber que o tempo não havia levado deles a delicadeza de serem carinhosos um com o outro. Só pude saber que se amavam da forma mais gentil possível.  

quinta-feira, 21 de março de 2013

Foi bom

É natural todo fim nos levar a uma pergunta, uma reflexão, uma investigação, um julgamento, para nós mesmos. Qual a nossa conclusão em relação ao que acabou? Foi bom o fim de filme, o fim de peça, o fim de show. Foi bom o fim de viagem, o fim de férias, o fim de semana. Foi bom o fim de um de amor, de uma amizade, de um caso. Foi bom?
Olhando para meu velho, alquebrado, deitado em uma cama de hospital e com olhos fechados, corroído pela doença, quase no fim, me pergunto, olhando para ele, e pensando por mim: “Foi bom?”. Foi é a resposta natural. Foi bom pai. A maior parte do tempo. Foi o meu herói quando se jogou de terno e gravata para salvar meu irmão que tinha caído por acidente na piscina funda do clube, numa dessas bobagens que meninos de cinco anos costumam fazer. Se jogou sem pensar, sem refletir. Logo ele que nem sabia nadar direito. Disso só soube anos mais tarde. E saiu ensopado, sob os olhares atônitos e curiosos dos presentes, esbravejando por não ter um salva-vidas por ali. Mas eu e meu irmão não precisávamos de salva-vidas, pois tínhamos o nosso, particular, sempre a postos. Foi sim bom pai. E pouco importa que a maior parte do tempo estivesse preocupado demais com coisas de gente grande. Pouco importa que não fizesse os deveres conosco, que não olhasse o boletim que insistíamos em mostrar orgulhosos, que ralhasse conosco por motivos de pouca importância e que de quando em vez nos desse chineladas merecidas e imerecidas. Pouco importa que não sentasse para brincar conosco e se mantivesse, quase sempre, olhando por entre nós e pensando em algo. Provavelmente problemas de adulto e que naquelas horas eram mais importantes do que estar conosco. Insistia em dizer “A vida é um mar de sangue, suor e lágrimas, filho”; “ganharás o pão com o suor do teu rosto”. Venceu algumas batalhas, perdeu outras tantas, atrapalhou-se pelo caminho. Como os atletas, como os bichos, perto do fim, perdeu mais do que ganhou. Mas não se acostumou com isso: sofria. Foi bom pai. Poderia ter sido melhor pai, como também eu poderia ter sido melhor filho. Como todos nós poderíamos ter sido melhores em tudo e em qualquer coisa. E talvez ainda possamos em algumas delas...
E mantendo a pergunta, olhando para ele, mas mudando o foco, e perguntando por ele: “Foi bom?”. Foi boa a vida que chega quase ao fim? Sei não e arrisco dizer que não. Difícil tentar entender o que se passa no íntimo de outro ser. Eu o enxergava sempre ocupado, olhando para fora de si, mas para dentro de ninguém, trabalhando, trabalhando, trabalhando, descuidando do corpo, da alma e do coração, esperando dias melhores que chegariam, para que, então, começasse a viver. E tantas vezes repetiu: “Em breve, filho, assim que as coisas melhorarem”. E os dias viraram semanas, as semanas viraram meses, os meses viraram anos, e os anos - quem diria - viraram algumas poucas décadas. Suficientes para não fazermos aquela viagem, para não irmos ao estádio ver aquele jogo, para não assistirmos aquele filme, para não ouvirmos aquela música, para não termos aquela conversa. Só há pouco tempo mesmo, com meu pai já bastante combalido, mas ainda sentando, descobri o gosto dele por jogar dominó. Ele ria! Por que não antes, meu Deus? Eu estive ali, eu estava ali, o tempo quase todo! E mesmo depois que parei de perguntar, porque a resposta era sempre a mesma “Em breve...”, eu teria voltado. Teria. Quero acreditar que teria. E também se eu não tivesse voltado, pouco importa, porque você teria sido feliz de qualquer maneira. Me corrijo e digo então que pode ter sido boa a vida pra ele. E me resta, agora, chorar por você e por mim, e amar meus filhos, com quem você nem conviveu, porque moramos em cidades diferentes. E me resta tentar ser um pai melhor do que tenho sido e melhor do que você foi. E me resta te amar para sempre, como um bom pai. Pra mim eu tenho a certeza que foi bom!
(anônimo)