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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Moldura

Recebo um presente enrolado numa folha de jornal.
O presente?
Um cartaz de um congresso esquecido.
Nele há letras brancas que emergem de um profundo desenho azul.
O mesmo azul do céu que ora me acolhe, ora me desmonta.
O cartaz passa a ter bordas e agora ocupa a parede da entrada da minha casa,
aquela onde há um espelho que costuma guardar meus segredos.
O jornal velho?
Mesmo amassado, agora tem contornos negros.
Será presente para quem me disse ainda criança
que desuso emoldurado é arte para quem
adora brincar de esquecer,
e se esquece,
rabisca, desenha, monta, escreve, canta, filma,
até desaparecer.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Avenida aurora, n° 33

Reflexos de luzes
desenham
um encontro
em vidros de
venezianas fechadas.
O horizonte,
testemunho da palavra,
pede entrada,
mas a porta está trancada.
Vozes da rua
indagam
se no parapeito da janela
um casal se detém.
Os raios amarelados do entardecer
dizem:
"esqueçam,
hoje,
o que há aqui dentro,
ninguém vê".

sexta-feira, 3 de março de 2017

Carnaval

Suas pernas,
pedaços de tempo,
sobem em
nítido embaraço.
Seus pés,
tempo em pedaços,
dançam ao acaso.
Seus olhos,
despedaçados de tempo,
encontram
amor
num amarelo espaço.

Folhas secas

Folhas secas a farfalhar.

Penso nas distâncias
que fazem escapar os sons.
Entre tantos ditos
me imagino a correr, correr, correr
até chegar às folhas secas.
Toco-as.
Balançam.
Escuto-as.
Falam de silêncios esquecidos.
Agora,
eu

caminho.
caminho,
caminho.

domingo, 21 de agosto de 2016

Flávia

"Longe, lá de longe, onde toda a beleza do mundo se esconde,
mande para ontem uma voz que se expanda e suspenda esse instante.
Cante para hoje" palavras que vêm de um tempo distante.
Fale agora que muito além do ontem, existe uma ponte de candura bem marcante.
Diga que nela anda uma moça de olhos fulgurantes,
que voa num céu de mil e cem cores.
Cante que quando há medo e fortes, fortes dores,
ela é vista a pular em nuvens de mil e e cem amores.
Fale que carrega um lenço bem rendado
para o caso de lágrimas e também tremores.
Diga que a encontrei no passado de mil e cem horizontes,
onde demos as mãos sob uma árvore de onde pendem quarenta,
sim quarenta flores.

Balanço

A sombra que desenha um vai e vem 
é amiga da menina que balança
num imaginário e descontínuo trem. 
Roçam, roçam, no chão de terra batida, os pés da moça,
que anunciam, nova estação.
Pequeno arrebite e o balanço pede:
"pare não".
Cabelos precisam de desalinhos
para seguir sem sofreguidão.  

quarta-feira, 30 de março de 2016

"Sua avó morre hoje"


Um telefonema da mãe bem cedo a avisou que a avó morreria naquele dia. No dia seguinte no máximo - teria dito o médico.

Sentada na mesa da cozinha, o sol batia de leve na cadeira mais longe da janela, o que ela sabia significar que o céu se abriria dali a pouco daquele jeito escandaloso que só em Brasília.

Correu para vê-la, demorando muito mais que o normal para percorrer os dez quilômetros que a separavam da casa da mãe, onde estavam a avó e sua morte; morte que, quando chegasse (às 10?, meio-dia?, três da tarde?, só na madrugada?), as separaria definitivamente e sem volta, fosse ela mais rápido ou mais devagar.

O quarto era o último do corredor. Estava certa: fazia um lindo dia de sol e o apartamento parecia suspenso, brincalhão, em seus raios. Fora o choro baixo da mãe, ninguém diria que naquele dia e naquela casa alguém perderia a vida.

Mas perdeu.

Só que antes ela abriu a porta e encarou a avó. Carcomida pela vida, pela doença e agora pela morte, nunca a tinha percebido tão miúda. De olhos fechados, alguma antessala já lhe tinha roubado o canal com o mundo havia dias.

Sentou-se junto à cama. Estavam as sós: ela, a avó, seu fiapo de vida e a morte iminente. O que fazer? O que se faz numa hora dessas?

Notou as janelas e cortinas fechadas; a luzinha fraca do abajur a (des)colorir o quarto de cinza-gelo.

Estaria a avó com calor? Estaria com frio? Estaria com dor? Estaria aonde?

Lembrou-se do nascimento da filha. Embora vinda da outra margem, só então havia visto de tão perto alguém cruzando essa mesma estranha passagem, vida-morte, morte-vida. E também tinha tido anúncio e véspera. Uma gravidez inteira já percorrida e a criança não nascia. Todo dia acordava e todo dia lhe alucinava o pensamento de que poderia terminar aquele dia mãe. Nada para ela dava conta daquele enquanto.

Pois terminaria o dia sem avó. E também nada parecia dar conta daquele agora. Se deixasse, a aflição a arrastaria agonizando com avó até o final. Mas a lembrança da gravidez inspirou-lhe outro rumo. Quando não sabia mais o que fazer para aguentar a espera pela bebê,  enfeitava os dias, com cantos, passeios, cheiros e histórias. Esmerava-se nisso: se ela chegasse, quando chegasse, sua filha encontraria o melhor entorno possível.

Teve a ideia então de, por que não?, enfeitar o máximo a morte da avó. Seria calma. Seria amarela. Seria solar. Seria fresca. Até alegre, até feliz, muito mais para agradecida do que contrariada. Havia motivo para isso, embora houvesse também tanto motivo contrário. Escolhas – vive-se delas até morrendo.  

Decidida por isso, abriu as cortinas todas, da casa inteira. O sol invadiu o quarto da avó e estava no ponto, nem quente, nem frio, só carinhoso. O vento deu uma lambida nos cabelinhos ralos da avó e arrepiou as pernas ainda inacreditavelmente bonitas para a idade. Simplesmente não dava para acreditar que aquelas pernas voltariam a ser terra em tão pouco tempo. Simplesmente não dava para acreditar que sua avó, ainda ali, não estaria mais, em alguns horas, alguns minutos, talvez só o tempo de terminar o pensamento. Simplesmente não dava para acreditar em nada do que estava acontecendo. A morte é mesmo um absurdo.

Queria colocar música, mas não se lembrava de que músicas a avó gostava, sentindo um golpe duro no peito bem aí ao imaginar que talvez não tivesse passado o tempo necessário com avó para descobrir-lhe as músicas. Aliás, talvez não tivessem feito um monte de coisas uma com a outra. E agora já não dava tempo para mais nada. Não importava: o que tinham sido e talvez principalmente o que não tinham sido também iria para debaixo do chão a seguir. Não. Errada. O que foram existiria enquanto ela existisse. Ok, o que não foram faria o favor de jogar lá no fundo do mundo mesmo.

E agora? Música de igreja, ótima pedida. Achou no celular e colocou em boa altura. Colocou todos os santos no criado-mudo. Avisou-lhes que estavam de plantão.

“Vamos cantar, vó. Vamos falar de alguma besteira. Sim, besteira, vó, porque só as besteiras estão à altura dos momentos realmente grandes como esse. Você não conseguindo, deixa comigo: eu canto e falo por você. E te abraço e te beijo e choro um pouco na sua bochecha (vai desculpando trair nosso plano de sua morte alegre).”

Enxotou, o dia inteiro, todo o assombro exagerado e o baixo astral que tocavam a campanhia. Podiam dizer adeus à avó, sim, mas que fossem leves, por favor. Rezou o terço em voz alta. Três vezes, como a avó tinha lhe ensinado quando se quer rezar o rosário. Passou na avó seu creme e seu perfume preferidos, da cabeça aos pés. Pegou os álbuns da casa, olhou as fotos de uma vida, mostrou a ela e a suas pálpebras cerradas. Comentou tudo de que se lembrou. Riu, enquanto a vó ainda se ia. Chorou, enquanto a vó ainda respirava. Entendeu coisas que nunca tinha entendido. Depois as esqueceu, como costuma acontecer. 

E desse jeito passaram o tempo – a neta, a avó e a morte. Ou a neta, a avó e a vida, na verdade. O dia e a noite acabou lhes vencendo. A avó, seus cabelos poucos, suas pernas belas, suas músicas desconhecidas, sua solidão fiada da ausência dos outros, se foram para sempre. A neta também morreu seu bocadinho ali,  o que, no entanto, lhe trouxe uma colherada a mais de vida - mas isso é outra história.

O telefone tocando sem parar a acordou de repente. Não se assustou; sentia uma paz e uma calma sem igual. Seus braços estavam estranhamente vermelhos de sol (ou amarelos?). E perfumados. Era sua mãe. Telefonara para dizer que o médico tinha dito que sua avó provavelmente não passaria daquele dia.